Dois dias depois de ser afastado do comando da SAF do Botafogo por decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getulio Vargas, John Textor embarcou no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, junto com a delegação alvinegra rumo a Brasília para o confronto contra o Internacional, válido pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro. A imagem do americano no aeroporto, registrada pelo jornalista Pedro Felipe, do Grupo Globo, na sexta-feira (24/4), já prenunciava que o sábado teria mais capítulos fora do campo do que dentro dele.
O disfarce que não enganou ninguém
No Mané Garrincha, Textor tentou se misturar aos torcedores com um kit de anonimato que qualquer cinegrafista amador colocaria à prova: boné e óculos escuros. A estratégia durou poucos minutos. Torcedores o reconheceram imediatamente, filmaram a aproximação e o cercaram para tirar fotos e pedir autógrafos. O próprio empresário documentou a tentativa malsucedida em vídeo publicado no Instagram, transformando o que seria um momento discreto em conteúdo viral.
"Não sou mais o presidente. Estou disfarçado. Vou assistir a esse jogo com os torcedores. Você pode tirar o homem da presidência, mas não pode tirar o amor do homem pelo clube. Acho que ninguém vai me reconhecer", disse Textor em vídeo postado no Instagram.
A frase funcionou como combustível para a internet. Em minutos, perfis de humor esportivo transformaram o boné e os óculos escuros em símbolo de uma tentativa de disfarce tão eficaz quanto colocar um bigode de papelão. A cena do bilionário — cuja fortuna é estimada em torno de US$ 300 milhões — caminhando entre a arquibancada popular com acessórios de R$ 50 virou série de memes que circularam durante toda a partida.
Entre a arquibancada e o camarote
A permanência de Textor entre os torcedores comuns foi breve. Segundo apuração do SportNavo, ele ficou na arquibancada apenas durante os primeiros minutos de bola rolando e depois seguiu para um camarote — trajetória que, por si só, condensou a contradição do momento: o gesto de proximidade popular rapidamente cedeu ao conforto reservado aos dirigentes. Antes de entrar no estádio, o americano havia chegado no ônibus da delegação, escoltado pela Polícia Militar, e foi um dos primeiros a desembarcar do veículo. A recepção foi dividida: parte dos torcedores o aclamou, distribuiu abraços e pediu fotos, enquanto outros protestaram. Ao fundo, um torcedor gritou "Cadê o dinheiro, Textor?", frase que o ex-mandatário ignorou.
O Botafogo empatou com o Internacional em 2 a 2 no Mané Garrincha. Danilo e Medina marcaram para o Glorioso; Carbonero e Bernabei descontaram para o Colorado. Com o resultado, o Botafogo chegou a 17 pontos e ocupa a nona colocação — desempenho modesto para um clube que foi campeão brasileiro em 2024.
O pano de fundo jurídico da presença em Brasília
A ida de Textor a Brasília não foi apenas simbólica. O afastamento decidido na quinta-feira (23/4) pelos três árbitros do Tribunal da FGV tem efeito imediato, mas será reanalisado na quarta-feira (29/4), quando as partes terão direito à manifestação. O afastamento atendeu a pedido da Eagle Bidco, acionista majoritária com 90% das ações da SAF, e se fundamenta em duas decisões do americano consideradas irregulares: a convocação unilateral de Assembleia Geral Extraordinária — que precisou ser adiada por ausência dos demais acionistas — e, principalmente, o protocolo de pedido de recuperação judicial da SAF, feito na última terça-feira (22/4) sem aprovação em assembleia de acionistas. O tribunal entendeu que as medidas "têm o potencial de causar danos irreparáveis aos acionistas e a toda a comunidade de torcedores do Botafogo".
"A decisão avança sobre matéria tipicamente societária, substituindo, de forma excepcional e sem a devida deliberação, a vontade dos acionistas, cuja manifestação, por definição legal e estatutária, deve ocorrer em assembleia regularmente convocada", reagiu a SAF do Botafogo em nota oficial.
Segurança e precedente para ex-dirigentes afastados
A movimentação de Textor ao longo da semana — ele esteve no Estádio Nilton Santos para ver o Botafogo vencer a Chapecoense por 1 a 0, visitou o CT Lonier e conversou com o elenco antes do afastamento — levanta uma questão concreta de protocolo: qual o limite de acesso de um dirigente afastado judicialmente às instalações e eventos do clube? A análise do SportNavo mostra que a legislação das SAFs brasileiras ainda não regulamenta com clareza o perímetro de exclusão de um gestor temporariamente afastado por decisão arbitral, criando uma zona cinzenta que clubes e tribunais terão de endereçar com mais precisão nos próximos meses, especialmente em casos de alta litigiosidade societária como o do Botafogo.
O Tribunal Arbitral da FGV retoma a análise do caso na próxima quarta-feira (29/4). A decisão que sair dessa sessão vai determinar se Textor retoma formalmente o comando da SAF ou se o afastamento se converte em medida de prazo mais longo — e, com ela, os limites exatos do que o americano pode ou não fazer dentro e fora dos estádios do clube.








