O Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas afastou John Textor do comando da SAF do Botafogo na quinta-feira, 24 de abril, atendendo a um pedido da Eagle Bidco, acionista majoritária do clube. A Assembleia Geral Extraordinária marcada para 27 de abril foi cancelada na sequência. A decisão pode ser revista apenas em 29 de abril, após manifestação das partes.
Como chegamos até aqui
A briga societária escalou rápido. No dia 17 de abril, a Eagle Bidco enviou notificação formal à SAF Botafogo declarando que "desautoriza qualquer medida relativa a um potencial pedido de recuperação judicial ou extrajudicial da SAF". O recado era direto: a Eagle, credora pela Ares Management, queria bloquear qualquer movimento de reestruturação que pudesse afetar seus créditos.
Textor não recuou. Convocou a AGE para 21 de abril — tentativa que a Eagle já havia bloqueado pelo Tribunal Arbitral. A segunda convocação, para 27 de abril, também foi cancelada após a decisão de quinta-feira. O Tribunal da FGV acompanhou o posicionamento do clube social, que concordou com o afastamento do americano.
"As medidas adotadas pela SAF Botafogo sob administração do Sr. John Charles Textor têm o potencial de causar danos irreparáveis aos acionistas e a toda a comunidade de torcedores do Botafogo", diz trecho da decisão do Tribunal Arbitral da FGV.
A recuperação judicial e o pedido de suspensão da Eagle
Antecipando a decisão do Tribunal Arbitral, a SAF protocolou na quarta-feira, 22 de abril, o pedido de recuperação judicial junto ao TJ-RJ — processo que corre em segredo de Justiça. Junto com ele, entrou uma cautelar pedindo a suspensão dos direitos políticos da Eagle Bidco nas assembleias da empresa.
O argumento da SAF é objetivo: com base no artigo 64, inciso IV, alínea c, da Lei de Recuperação e Falências, a Eagle não poderia votar nas deliberações porque teria interesses diretamente contrários à preservação da companhia. A petição sustenta que a Eagle, por meio da Ares, usaria seu poder de voto para travar medidas de reestruturação.
"A Eagle Bidco e a Ares teriam seus interesses voltados à satisfação de seus créditos impactados com um possível pedido recuperacional, por isso se utilizarão do direito de voto, em nítido conflito, para travar as medidas adotadas pela SAF Botafogo para sua reestruturação", diz a petição inicial da SAF, obtida pelo ge.
O juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio, classificou o pedido de suspensão como "medida de gravidade extrema" e determinou que a Eagle Bidco seja intimada com base no contraditório do artigo 7º do CPC. A empresa tem cinco dias para se manifestar — prazo que corre com a Eagle sob administração judicial da Cork Gully, na Inglaterra. O magistrado também acatou a medida que impede rescisões unilaterais de jogadores do elenco.
O que muda para o Botafogo dentro de campo
A SAF emitiu nota oficial garantindo que o clube "segue em plena atividade, participando normalmente de todas as competições esportivas". O processo de recuperação judicial, previsto também na Lei da SAF, permite renegociação estruturada com credores e reorganização do fluxo financeiro sem paralisar operações. Salários de atletas, funcionários e prestadores de serviço foram citados como prioridade absoluta na nota.
A análise do SportNavo mostra que o timing do pedido de recuperação judicial — protocolado horas antes da decisão do Tribunal Arbitral — indica uma disputa paralela de jurisdições: enquanto a FGV afasta Textor via câmara arbitral, a SAF tenta construir um escudo jurídico no TJ-RJ para viabilizar a reestruturação independentemente do voto da Eagle. São duas frentes judiciais abertas simultaneamente, com resultados que ainda se contradizem.
Quem controla o Botafogo agora
Formalmente, com Textor afastado pela FGV, a Eagle Bidco retoma posição de controle societário. Mas a SAF questiona exatamente esse poder via Justiça comum. A decisão sobre a cautelar de suspensão dos direitos da Eagle ainda não foi tomada — o juiz quer ouvir a empresa antes de se pronunciar. Textor, por sua vez, acionou o TJ-RJ para tentar reverter o afastamento determinado pela FGV.

O próximo marco definido é 29 de abril, data em que o Tribunal Arbitral da FGV revisará a decisão de afastamento de Textor após manifestação de todas as partes. A Eagle Bidco tem cinco dias para responder à cautelar na Justiça estadual. Os dois processos correm em paralelo e o resultado de um pode interferir diretamente no outro.








