A estratégia da Independente, principal organizada do São Paulo, revela uma mudança na abordagem dos protestos no futebol brasileiro. Após a derrota de virada para o Vasco por 2 a 1, no sábado (18), os torcedores confrontaram o presidente Harry Massis Jr. na porta do CT da Barra Funda na segunda-feira (20), mas pouparam explicitamente o técnico Roger Machado. O foco das críticas recaiu sobre o executivo de futebol Rui Costa, numa demonstração de que as organizadas começam a identificar responsabilidades estruturais além do banco de reservas.
A manifestação ocorreu em tom ríspido, com os uniformizados exigindo mudanças urgentes na gestão tricolor. Durante o confronto, que durou cerca de 15 minutos, Massis Jr. permaneceu no carro ouvindo as reivindicações sem responder diretamente aos questionamentos. Os torcedores aproveitaram para relembrar que o protesto aconteceu justamente no dia do 54º aniversário da torcida organizada, intensificando o tom de decepção com o momento do clube.
"O técnico aqui [Roger Machado] é um coitado, viu... E sabe por que ele vai ser mandado embora, como foram o Crespo, o Zubeldía...? É por causa do Rui Costa", declarou um dos organizados durante o protesto.
Por que Roger Machado escapou das críticas
A proteção ao técnico Roger Machado representa uma mudança estratégica da torcida organizada, que historicamente concentrava pressão nos comandantes técnicos. Os organizados argumentaram que sucessivas demissões de treinadores como Hernán Crespo, Thiago Carpini e Pablo Zubeldía demonstram um padrão de instabilidade que transcende o trabalho no banco. Desde 2021, o São Paulo já teve nove técnicos diferentes, incluindo interinos, numa rotatividade que compromete qualquer projeto de médio prazo.
Roger Machado assumiu o comando técnico em setembro, após a saída de Zubeldía, e conduziu a equipe em 16 partidas até o momento. O aproveitamento de 54,1% nas competições nacionais não impressiona, mas os torcedores reconhecem limitações estruturais que vão além das decisões táticas. A derrota para o Vasco, onde o Tricolor saiu na frente e sofreu a virada nos minutos finais, exemplifica problemas de mentalidade e preparação que os organizados atribuem à gestão executiva.
"Dessa vez viemos aqui fazer diferente. Antes de mandar o técnico embora, tem que mandar o Sr. Rui embora", bradaram os torcedores durante o protesto no CT.
Rui Costa no centro das críticas estruturais
O executivo de futebol Rui Costa, que chegou ao São Paulo em janeiro de 2023, vem sendo responsabilizado pela Independente por decisões que comprometem a estabilidade do clube. Durante seu período no cargo, o português coordenou a contratação e demissão de quatro técnicos principais, além de supervisionar janelas de transferências que não atenderam às expectativas da torcida. O orçamento para 2024 previa investimentos de R$ 80 milhões em contratações, mas o retorno em campo não correspondeu aos valores aplicados.
Os números do futebol feminino do São Paulo, área que acompanho de perto como jornalista especializada, oferecem um contraponto interessante. Enquanto o masculino enfrenta instabilidade constante, a equipe feminina mantém projeto estruturado há três anos, com a técnica Thais Picarte. O investimento anual de R$ 3,5 milhões no feminino representa apenas 4,3% do orçamento total do masculino, mas entrega resultados consistentes e planejamento de longo prazo.
Conforme levantamento do SportNavo, a gestão de Rui Costa coincide com o período de maior instabilidade técnica na era moderna do São Paulo. A rotatividade de comandantes compromete a implementação de metodologias de trabalho e prejudica o desenvolvimento de jogadores jovens, que precisam de continuidade para evoluir. Os organizados demonstram compreender essa dinâmica ao focar críticas na estrutura executiva.
Influência das organizadas nas decisões clubísticas
O episódio no CT da Barra Funda ilustra o poder de pressão das torcidas organizadas no futebol brasileiro, especialmente em momentos de crise. A Independente, fundada em 1969, representa cerca de 15 mil associados e historicamente influencia decisões administrativas do São Paulo. A estratégia de proteger Roger Machado e mirar especificamente em Rui Costa demonstra sofisticação política na abordagem dos protestos.
Clubes como Corinthians, Flamengo e Palmeiras também enfrentam pressões similares de suas organizadas, mas raramente com o foco direcionado aos executivos de futebol. A tendência no futebol europeu aponta para maior estabilidade técnica e responsabilização de dirigentes, modelo que os torcedores são-paulinos parecem querer importar. Na Premier League, por exemplo, técnicos como Pep Guardiola e Jürgen Klopp permaneceram anos nos mesmos clubes, sustentados por estruturas executivas sólidas.
O São Paulo retorna aos gramados na quinta-feira (23), contra o Grêmio, no Morumbi, pela 38ª rodada do Brasileirão. A partida pode ser decisiva para definir se Roger Machado permanece no cargo para 2025, enquanto a pressão sobre Rui Costa tende a se intensificar caso os resultados não melhorem nas últimas rodadas da temporada.

