Diz-se que os Estados Unidos nunca passaram de uma semifinal de Copa do Mundo — e que, portanto, a euforia de qualquer presidente americano com o futebol deve ser lida como protocolo diplomático, não como convicção esportiva. O dado é real: o melhor resultado da seleção americana foi o terceiro lugar em 1930, na primeira edição do torneio, quando a competição ainda tinha oito seleções e o Brasil sequer chegou às semifinais. Mas o que está acontecendo em 2026 tem uma dimensão que vai além da estatística de campo — e o motivo importa para entender o que está em jogo nesta Copa do Mundo.

Na estreia do Grupo D, realizada nos primeiros dias do torneio, os Estados Unidos golearam o Paraguai por 4 a 1. O placar, expressivo para qualquer padrão, foi suficiente para colocar a seleção anfitriã na liderança provisória da chave, com três pontos. Austrália e Turquia completam o grupo e se enfrentaram na madrugada do domingo, à 1h (horário de Brasília), para encerrar a primeira rodada.

Dois telefonemas e um diretor executivo da Casa Branca no Mundial

O que diferencia esta Copa de todas as anteriores disputadas em solo americano — inclusive a de 1994, quando os EUA chegaram às oitavas e perderam para o Brasil de Romário e Bebeto — é a presença institucional do governo federal dentro da estrutura de apoio à seleção. Donald Trump telefonou para o técnico Mauricio Pochettino em dois momentos distintos: horas antes da partida contra o Paraguai, para elogiar o trabalho do treinador argentino, e novamente após o apito final, para celebrar a vitória e projetar o futuro da equipe.

O intermediário dessas ligações foi Andrew Giuliani, filho do ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, nomeado pela Casa Branca como diretor executivo para acompanhar o Mundial. A função, criada especialmente para esta Copa, não tem precedente formal na história do futebol americano — nem mesmo em 1994, quando Bill Clinton recebeu as seleções na Casa Branca, houve um cargo governamental dedicado exclusivamente à competição.

"Você é um cara fantástico, um grande treinador, e também sei o quão bons são os jogadores. Acho que vocês têm grandes chances de chegar à final. Só quero desejar muita sorte", declarou Trump a Pochettino antes da estreia.

A declaração contrasta com uma postura anterior do próprio Trump: há aproximadamente um ano, o presidente havia questionado o presidente da FIFA, Gianni Infantino, sobre as reais possibilidades de os EUA conquistarem o título mundial — uma pergunta que, na época, soou mais como ceticismo do que como estímulo.

Dois telefonemas e um diretor executivo da Casa Branca no Mundial Trump ligou du
Dois telefonemas e um diretor executivo da Casa Branca no Mundial Trump ligou du

O peso histórico de misturar política e seleção nacional

A história do futebol registra episódios em que o envolvimento político produziu efeitos contraditórios sobre o desempenho esportivo. A Argentina de 1978 é o exemplo mais estudado: a ditadura militar de Jorge Rafael Videla transformou o título mundial em instrumento de propaganda, com consequências que os argentinos debatem até hoje. Na Itália de 1934 e 1938, Mussolini pressionou árbitros e organizadores com resultados que mancharam as duas conquistas. Nos EUA de 2026, o contexto é democrático e o apoio presidencial é público — mas a pressão sobre Pochettino existe, mesmo que seja exercida com elogios.

  • 1930 — EUA chegam ao terceiro lugar, melhor resultado histórico, com 6 gols marcados em semifinal contra Argentina (derrota por 6 a 1)
  • 1950 — EUA vencem a Inglaterra por 1 a 0 em uma das maiores zebras da história, mas são eliminados na fase de grupos
  • 1994 — Em solo americano, os EUA chegam às oitavas e perdem para o Brasil por 1 a 0, gol de Bebeto
  • 2002 — Melhor campanha recente: quartas de final, eliminados pela Alemanha (1 a 0)

Pochettino, que construiu sua reputação no Southampton, Tottenham e PSG antes de assumir o comando americano, tem trabalhado desde 2023 para profissionalizar uma seleção que historicamente sofre para reter seus melhores talentos — muitos nascidos nos EUA optam por defender outros países, como ocorreu com Gio Reyna e com o debate em torno de outros jogadores de dupla nacionalidade.

O que a goleada sobre o Paraguai revela sobre este elenco

O Paraguai que os EUA derrotaram por 4 a 1 não é uma seleção de segunda linha. A equipe guarani tem tradição histórica no continente: foi quarta colocada na Copa de 2010, na África do Sul, eliminando o Japão e o Brasil antes de cair para a Espanha nas semifinais. Uma goleada por três gols de diferença, portanto, representa um dado concreto, não apenas um resultado de protocolo.

O técnico argentino montou um esquema que aproveita a velocidade dos atacantes americanos e a solidez de uma geração que cresceu jogando nas principais ligas europeias. A qualidade do elenco — ponto destacado explicitamente por Trump em sua conversa com Pochettino — é, de fato, a mais alta da história da seleção americana, com jogadores atuando em Premier League, Bundesliga e Serie A.

O risco do otimismo presidencial virar pressão real

O problema com o envolvimento político na campanha de uma seleção anfitriã não é a torcida — é a expectativa institucionalizada. Quando um presidente declara publicamente que acredita na final, qualquer resultado abaixo disso se transforma em fracasso político, não apenas esportivo. A Copa de 1994 nos EUA foi considerada um sucesso organizacional mesmo sem o título americano; a de 2026, com Trump como protagonista ativo da narrativa, criou um parâmetro diferente.

Pochettino, experiente o suficiente para navegar pressões — ele sobreviveu a anos de cobrança intensa no Tottenham sem conquistar um único título — precisará administrar esse peso adicional. A presença de Andrew Giuliani como elo permanente entre a Casa Branca e o vestiário americano é um fator inédito que pode tanto motivar quanto criar ruído interno nas semanas seguintes.

"Só quero desejar muita sorte", disse Trump — mas o contexto sugere que a aposta presidencial vai muito além de uma mensagem de boa vontade.

Os EUA voltam a campo pelo Grupo D com a liderança e com o peso de uma nação inteira — e de um presidente em campanha permanente — assistindo cada passe. O próximo jogo americano no grupo definirá se a goleada sobre o Paraguai foi um ponto de partida sólido ou uma anomalia de estreia. Vale gravar esse jogo: a reação de Pochettino sob pressão presidencial, em campo, vai dizer muito sobre como os EUA pretendem chegar longe nesta Copa.