— Mas como a Inglaterra vai jogar sem Foden? O cara é o melhor meia do país.
— Tuchel mesmo disse que ele não cabe no esquema com Bellingham e Kane juntos.
— Então o problema não é Foden. O problema é o esquema.
Essa conversa, que aconteceu em bares de Manchester a pubs de Londres nas últimas semanas, resume com precisão cirúrgica o dilema que Thomas Tuchel carrega às vésperas da Copa do Mundo. O técnico alemão, que assumiu a seleção inglesa em janeiro de 2024, foi direto ao ponto quando questionado sobre a possibilidade de escalar Phil Foden, Jude Bellingham e Harry Kane simultaneamente: "Se mantivermos a estrutura, eles não conseguem jogar juntos." A frase não é uma desculpa. É um diagnóstico.
O que Tuchel disse e o que os números revelam sobre o trio inglês
A declaração de Tuchel não surgiu do nada. Ela é a síntese de meses de observação e de um princípio que sempre norteou seu trabalho em clubes como Chelsea, PSG e Bayern de Munique: funções bem definidas valem mais do que talentos empilhados. Quando o técnico diz que Kane, Bellingham e Foden não cabem juntos, ele está descrevendo um problema de geometria, não de qualidade individual.
Foden, aos 25 anos, é um meia que opera entre linhas, exige a bola nos pés e precisa de espaço para girar e progredir. Bellingham, o galáctico do Real Madrid que na temporada 2025/2026 acumula mais de 15 gols pela seleção e pelo clube, ocupa exatamente essa mesma faixa do campo — a zona 10, entre o meio e o ataque. Kane, capitão recordista dos Três Leões, é um centroavante que se movimenta para receber de frente, exigindo que os meias criem para ele, e não ao lado dele. Três jogadores que pedem a bola no mesmo corredor, com funções que se sobrepõem, em um esquema que Tuchel quer vertical e de alta rotação.
"Se mantivermos a estrutura, eles não conseguem jogar juntos", declarou Thomas Tuchel ao explicar as escolhas para a lista final de 26 jogadores.
O modelo de jogo inglês sob Tuchel se apoia em um eixo central formado por Declan Rice como primeiro volante e Bellingham com liberdade para avançar. Os laterais criam por dentro, formando triângulos, e a equipe pressiona alto nas reações pós-perda. Nessa estrutura, há espaço para um meia criativo — mas apenas um. Foden e Cole Palmer, outro cortado da lista final, são jogadores que precisam de tempo e toque para expressar seu futebol. Num time que quer pressionar em alta velocidade, eles seriam freios, não motores.
A lista de 26 e as escolhas que revelam a identidade dos Três Leões
A convocação definitiva de Tuchel para a Copa confirmou o que a frase sobre o trio já antecipava. Foden e Palmer ficaram fora. Bellingham e Kane foram chamados. No meio-campo, entraram nomes como Kobbie Mainoo, do Manchester United, Elliot Anderson, do Nottingham Forest, e Eberechi Eze, do Arsenal — campeão da Premier League 2025/2026. Noni Madueke, também do Arsenal, foi convocado como atacante, ocupando uma vaga que muitos esperavam ver preenchida por jogadores mais consagrados.
A lista completa de goleiros inclui Jordan Pickford, do Everton, Dean Henderson, do Crystal Palace, e James Trafford, do Manchester City. Na defesa, Tuchel apostou em nomes como Marc Guehi, agora no Manchester City, e Jarell Quansah, do Bayer Leverkusen. Marcus Rashford, que atua pelo Barcelona após passagem controversa pelo Manchester United, também foi chamado. A presença de Ivan Toney, do Al-Ahli, na lista de atacantes ao lado de Ollie Watkins e Anthony Gordon reforça a leitura de que Tuchel quer opções físicas e diretas no ataque, não meias disfarçados de pontas.
Quem não tem cão caça com gato — e Tuchel, sem poder usar os três maiores talentos ofensivos ingleses juntos, armou uma equipe em que a função coletiva dita o talento individual, e não o contrário. Eze e Morgan Rogers, do Aston Villa, serão as alternativas criativas ao lado de Bellingham, com perfis mais adaptáveis ao pressing que o alemão exige.
O que esse dilema significa para a campanha inglesa na Copa
Quando Bellingham joga livre, ele transforma o jogo. Quando Kane está em ritmo, ele marca. Quando Foden tem espaço, ele cria. O problema é que os três juntos criam um curto-circuito tático que Tuchel não está disposto a resolver improvisando.
Quando Tuchel escala Bellingham como camisa 10 com liberdade total, ele precisa de um meia ao lado que aceite a função mais disciplinada de cobrir espaços e proteger a saída de bola. Foden nunca foi esse jogador. Palmer tampouco. Eze e Mainoo, sim. Quando Tuchel define Kane como referência única no ataque, ele precisa de pontas que abram espaço e não disputem o mesmo corredor central com o centroavante do Bayern de Munique. Foden, que prefere jogar por dentro, comprimiria exatamente o espaço que Kane precisa.
"O modelo de jogo precisa refletir a Premier League, uma liga física, exigente e direta", afirmou Tuchel ao delinear sua filosofia à frente dos Três Leões.
A ruptura com a era Gareth Southgate é mais profunda do que parece. Southgate construiu equipes que sofriam com o excesso de talentos sem função clara — e chegou a duas finais de torneio (Euro 2020 e Euro 2024) sem vencer nenhuma. Tuchel está fazendo a escolha oposta: menos brilho individual, mais clareza coletiva. O risco é óbvio. A Inglaterra vai à Copa sem dois dos melhores meias do mundo na forma da vida, Foden e Palmer, e com um esquema que ainda não foi testado em nível de pressão máxima.
A seleção inglesa estreia na Copa do Mundo no Grupo F, e a resposta sobre se Tuchel acertou ou errou virá em campo. O primeiro jogo dos Três Leões está marcado para a segunda semana de junho, e será o teste real de uma equipe construída sobre princípios táticos rígidos — e sobre a ausência calculada de seus maiores talentos.








