0 lutas femininas. É isso que o card do UFC na Casa Branca oferece ao público — zero, nenhuma, nem uma. Num evento que o próprio Dana White descreveu como o mais importante já produzido pela organização, num palco que jamais se repetirá, a decisão de montar um card inteiramente masculino não é esquecimento nem acaso. É escolha. E escolhas têm consequências que vão além do resultado da noite.
A lógica do espectador casual e o que ela apaga
Eu lutei oito anos no circuito mundial de muay thai. Subi em ringues na Tailândia, na Holanda, no Brasil. E aprendi algo que nenhum treinador me ensinou explicitamente: quando você está no quinto round, exausta, com o lábio partido, a última coisa que existe na sua cabeça é o que o público acha da sua potência de golpe. O que existe é sobrevivência técnica — respiração, distância, timing. O espectador casual, aquele que o UFC tanto quer seduzir para a Casa Branca, nunca vai ver isso. Ele vê o que viraliza.
A justificativa oficial da organização passa por audiência e apelo comercial. O raciocínio é quase cirúrgico: o evento precisa alcançar quem nunca assistiu a um Fight Night, o espectador de ocasião que sintoniza porque o octógono está montado no gramado da Casa Branca. Para esse público, o argumento interno do UFC é que o MMA feminino atual não tem o mesmo poder de tração que teve entre 2012 e 2018, quando Ronda Rousey enchia arenas e aparecia em capas de revista fora do universo do esporte.
Não há tragédia nisso: há contabilidade. O problema é que contabilidade de curto prazo costuma cobrar juros no longo prazo — e o MMA feminino já está pagando essa conta há alguns anos.
Amanda Nunes construiu um legado que o UFC prefere não lembrar agora
Amanda Nunes foi campeã simultânea em duas categorias do UFC — peso-galo e peso-pena — entre 2018 e 2023. Nocauteou Ronda Rousey em 48 segundos em dezembro de 2016. Finalizou Cris Cyborg em 51 segundos em dezembro de 2018. Esses não são números de atleta com "menor impacto de nocaute". São números que qualquer lutador masculino usaria como cartão de visitas pelo resto da carreira.
A narrativa de que o MMA feminino tem menos nocautes — e que isso justifica menor espaço comercial — ignora o histórico recente de suas maiores estrelas. A explicação biológica existe: mulheres competem em categorias mais leves e têm níveis significativamente menores de testosterona, hormônio diretamente ligado ao desenvolvimento de força e potência muscular. Mas transformar diferença biológica em critério de exclusão de um evento histórico é um salto lógico que merece ser chamado pelo nome que tem.
"O nível técnico do MMA feminino nunca foi tão alto. O problema é a conexão com o grande público", conforme registrado por SportNavo ao mapear a polêmica em torno do card.
Essa frase, que circula entre analistas da modalidade, resume bem a contradição: a qualidade está lá, mas o sistema de visibilidade foi construído para não enxergá-la. E quando o maior palco da história do esporte surge, a lógica se repete.
O que um card sem mulheres diz sobre o futuro do MMA feminino
Existe uma diferença entre ausência e invisibilidade. Ausência pode ser circunstancial — uma campeã lesionada, um matchup que não fechou. Invisibilidade é estrutural: é quando o critério de seleção para o evento mais importante da história da empresa não inclui sequer a possibilidade de uma luta feminina no card. Nenhuma categoria, nenhum título em disputa, nenhuma co-main event.
Críticas apontam retrocesso na igualdade de gênero no esporte, e o argumento tem base histórica concreta. O UFC incluiu sua primeira luta feminina em fevereiro de 2013 — Rousey contra Liz Carmouche, no UFC 157. Desde então, lutadoras ajudaram a construir eventos numerados, PPVs milionários e audiências recordes. Excluí-las do evento mais simbólico da organização envia uma mensagem que nenhum release oficial consegue desfazer.
O número de categorias femininas no UFC ainda é menor que o masculino — são quatro divisões contra oito. A base de praticantes é reduzida, o que limita o pipeline de estrelas capazes de romper a bolha do MMA e atingir o mercado de massa. Tudo isso é real. Mas esses são problemas que o próprio UFC tem responsabilidade de endereçar — e que um evento de escala histórica poderia ter ajudado a resolver, se a escolha fosse outra.
Quando lutei, aprendi que a narrativa de uma luta é construída antes do primeiro golpe. O card da Casa Branca já foi narrado: é um espetáculo de homens, para um público que o UFC imagina ser majoritariamente masculino, num palco que não se repetirá. As lutadoras que poderiam estar ali — e que existem, treinam, vencem e perdem com a mesma intensidade de qualquer peso-pesado — vão assistir de fora. Como sempre, quando o palco fica grande demais.
O UFC Freedom 250 acontece em junho de 2026. Nas semanas seguintes, a organização já tem eventos programados onde categorias femininas devem retornar ao card. A pergunta que fica é esta: se o evento mais assistido da história do UFC for realizado sem uma única luta feminina e os números de audiência quebrarem recordes, o que impede a organização de usar esse resultado como argumento para reduzir ainda mais o espaço das mulheres nos próximos grandes cards?








