Confesso: em 2023, eu subestimei o impacto do VAR semi-automático. Achei que era mais do mesmo — tecnologia cara, polêmica garantida, resultado duvidoso. Errei. E hoje, diante das novidades que a Copa do Mundo de 2026 vai apresentar, entendo por que errei: eu ainda pensava no VAR como ferramenta de revisão. Ele está se tornando, rapidamente, uma ferramenta de prevenção.

O aviso de 10 cm que chega antes da bandeira subir

A mudança mais imediata envolve a comunicação entre o sistema de detecção automática e os árbitros assistentes. Até agora, o VAR semi-automático identificava impedimentos e repassava a informação ao árbitro central, que então sinalizava ao auxiliar. A partir da Copa do Mundo, esse caminho será encurtado de forma radical: se o sistema detectar um impedimento igual ou superior a 10 centímetros, o aviso chegará diretamente ao comunicador do assistente, que levantará a bandeira de imediato.

Johannes Holzmüller, diretor de inovações da Fifa, explicou a lógica por trás da margem escolhida após três anos de testes progressivos em torneios oficiais da entidade, incluindo a Copa Intercontinental realizada no final de 2025.

"Estamos testando nos últimos três anos em outros torneios. Começamos com 50 cm de margem. A diferença agora é de 10 cm para claro impedimento. Vai ser aviso direto para os auxiliares e para os árbitros", detalhou Holzmüller.

O executivo reforçou que a decisão final continua sujeita à confirmação do VAR com precisão milimétrica — mas os dados coletados nos testes mostram que os casos em que a revisão reverte o aviso automático são estatisticamente raros. O sistema não substitui o árbitro. Ele o informa antes que o jogo avance desnecessariamente.

Pense no que acontece numa tarde de domingo no Maracanã quando um atacante dispara em velocidade máxima, o auxiliar hesita por dois segundos e o lance se desenvolve até o gol. O VAR anula. O atacante, que freou bruscamente ao ouvir o apito tardio, sente o músculo posterior da coxa. É um cenário repetido em estádios do mundo inteiro. Com o alerta instantâneo, a corrida termina antes de começar.

"Nesta Copa, a informação será mandada direto para os auxiliares. Os auxiliares vão levantar instantaneamente a bandeira", afirmou Holzmüller, destacando que a agilidade reduz o risco de lesões desnecessárias em lances já invalidados pelo sistema.

O avatar digital que dá milímetros de vantagem ao árbitro

A segunda novidade opera numa camada diferente, mas complementar. Todos os jogadores inscritos na Copa do Mundo passarão por um escaneamento corporal completo antes da competição. O resultado será um avatar digital tridimensional de cada atleta — com as dimensões exatas do seu corpo, incluindo comprimento de braços, largura de ombros e altura real em campo.

Art Hu, chefe de informação da Lenovo, parceira tecnológica da Fifa no projeto, explicou o impacto prático da iniciativa em matéria do SportNavo.

"Todos vão ter um avatar digital. É só scan no atleta. Vai dar mais suporte para as decisões do árbitro. As dimensões dos jogadores ajudam a ser mais preciso em milímetro. E melhora a experiência do telespectador", disse Hu.

Até agora, o VAR semi-automático utilizava modelos corporais genéricos ou aproximações baseadas em dados cadastrais dos atletas. A diferença entre o modelo padrão e o avatar personalizado pode parecer pequena — mas em lances onde a margem é de 2 ou 3 centímetros, a geometria do corpo do jogador define se o gol sobe ao placar ou vai para o lixo.

O número de câmeras dedicadas à geração de imagens em 3D também aumentará de 12 para 16 por estádio. Esse acréscimo amplia os ângulos disponíveis para analisar não apenas impedimentos, mas também saídas de bola e situações em que a presença de um adversário pode ter comprometido a visão do goleiro — um critério que influencia diretamente a interpretação de impedimento passivo.

O que muda no ritmo dos jogos e no mapa da Copa

O conjunto das inovações aponta para um torneio com menos interrupções longas e decisões mais rápidas. Os testes realizados na Copa Intercontinental de 2025 indicaram redução no tempo médio de revisão de lances de impedimento — exatamente o tipo de pausa que irrita torcedores e fragmenta o ritmo das partidas.

O aviso de 10 cm que chega antes da bandeira subir VAR com aviso em 10 cm e avat
O aviso de 10 cm que chega antes da bandeira subir VAR com aviso em 10 cm e avat

Há, porém, uma zona de atenção que os árbitros precisarão administrar. A margem de 10 centímetros foi calibrada para casos de impedimento claro. Lances limítrofes — aqueles em que a diferença está entre 3 e 9 centímetros — continuarão sendo processados pelo sistema tradicional, sem o alerta imediato. Isso significa que haverá uma faixa de situações em que o auxiliar não receberá o aviso automático, e o protocolo de revisão seguirá o fluxo atual. A transição entre os dois regimes exigirá treinamento específico das equipes de arbitragem designadas para a competição.

O impacto nas seleções também é concreto. Comissões técnicas que apostam em linhas defensivas altas — como as que o Brasil e a Espanha testaram nos últimos ciclos — terão menos margem para erros de posicionamento, já que a detecção automática operará com avatar preciso e câmeras adicionais. Atacantes velozes que vivem nos limites da linha defensiva ganham, em tese, mais proteção contra bandeiras levantadas por reflexo tardio do auxiliar.

A Copa do Mundo começa em 11 de junho de 2026, com jogos distribuídos entre Estados Unidos, México e Canadá. Os 48 países participantes já foram informados sobre o protocolo de escaneamento, que deverá ser concluído durante o período de credenciamento das delegações nos centros de treinamento oficiais, nas semanas que antecedem a abertura do torneio.