O avião da delegação iraniana pousou em solo americano com um relógio já marcando a contagem regressiva: 24 horas. Não para o jogo. Para sair do país. É o prazo dos vistos emitidos pelo governo de Donald Trump que permitem à Copa do Mundo de 2026 ter, pela primeira vez em 92 anos de história do torneio, uma seleção de um país em conflito direto com o anfitrião disputando partidas em território adversário.
Uma situação sem precedente nos 92 anos do torneio
O Irã está no Grupo G ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito, com as três partidas da fase de grupos agendadas em Los Angeles e Seattle — duas das cidades mais politicamente sensíveis dos Estados Unidos. A lógica do sorteio não previu que, ao mesmo tempo em que os dois países trocavam hostilidades militares, seus representantes no futebol seriam obrigados a dividir o mesmo campo de operações geográficas. Nenhuma edição anterior da Copa do Mundo enfrentou geometria semelhante: nem em 1938, com a Europa às vésperas da Segunda Guerra; nem em 1978, com a Argentina da ditadura militar recebendo rivais; nem em 1982, quando Inglaterra e Argentina ainda carregavam as feridas das Malvinas.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, atuou intensamente nos bastidores para evitar que a delegação iraniana fosse simplesmente proibida de entrar nos Estados Unidos — o que teria configurado a maior crise institucional da entidade desde a suspensão da África do Sul em 1961. O acordo alcançado, porém, criou um protocolo sem qualquer paralelo na história do torneio.
O que o visto de 24 horas permite e o que ele veda
As autorizações de entrada abrangem os jogadores e apenas alguns membros considerados essenciais da comissão técnica. Ficaram de fora médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos auxiliares e, de forma especialmente simbólica, o próprio presidente da Federação Iraniana de Futebol — ex-integrante da Guarda Revolucionária, segundo o governo americano. A delegação, portanto, entra no país, disputa a partida e precisa embarcar de volta antes que o prazo expire. Não há hospedagem oficial nos Estados Unidos entre rodadas, não há treinos em solo americano nos dias que antecedem cada jogo, não há a rotina de adaptação que qualquer comissão técnica de alto nível considera mínima para preparar uma equipe.
Quando uma seleção perde o direito de treinar no estádio na véspera, ela perde também o reconhecimento do gramado, a calibragem da iluminação e a leitura da acústica — detalhes que separam o futebol profissional de alto nível do amadorismo. Quando uma comissão médica é barrada na fronteira, o staff restante improvisa com recursos reduzidos numa competição onde cada músculo sobrecarregado pode custar uma eliminação precoce.
O árbitro deportado e o padrão que se revela
O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, relatado com detalhes em matéria do SportNavo, ilumina o padrão que se repete. Ele havia sido selecionado como um dos três árbitros africanos para o Mundial — uma conquista histórica para o futebol do continente — e chegou a Miami com toda a documentação regular, incluindo o visto. Após mais de 11 horas de interrogatório, foi deportado. O governo americano alegou risco à segurança nacional e supostas conexões com grupos terroristas, sem apresentar provas públicas. Infantino classificou a decisão como "infeliz", mas reconheceu que a entidade "não pode controlar tudo" — frase que, vinda do dirigente mais poderoso do futebol mundial, soa como um recuo estratégico diante de uma potência política que a Fifa não conseguiu dobrar.
"Infeliz", disse Infantino sobre a deportação do árbitro somali, admitindo que a Fifa "não pode controlar tudo" quando o anfitrião decide quem entra em seu território.
As imagens que circularam nas redes sociais de inspeções consideradas humilhantes nas delegações de Senegal e Uzbequistão em solo americano completam o quadro. Dois países africano e centro-asiático submetidos a abordagens que nenhuma delegação europeia relatou ter enfrentado. A seletividade das restrições diz mais do que qualquer comunicado oficial.

O preço político que o futebol paga fora dos gramados
Em 1994, os Estados Unidos receberam a Copa pela primeira vez e produziram uma edição tecnicamente impecável, com público recorde que permanece incomparável até hoje: 3.587.538 espectadores nos 52 jogos, média de 68.991 por partida. Naquele torneio, a diplomacia do futebol funcionou como amortecedor de tensões — Romário e Bebeto celebravam gols enquanto o mundo saía do pós-Guerra Fria. Em 2026, o cenário inverteu: o futebol é que precisa de diplomacia para funcionar.
A negativa de vistos para torcedores iranianos — e para parcelas de torcedores de outros países muçulmanos — combinada com os preços de ingressos que um morador de Santa Úrsula, a 100 metros do Azteca, descreveu como "exorbitantes", configura uma Copa que se fecha sobre si mesma justo quando o formato de 48 seleções prometia abrir o futebol para o mundo. O Irã joga sua estreia no Grupo G em Los Angeles, data ainda a confirmar pelo calendário oficial da Fifa, com a delegação obrigada a embarcar de volta ao Oriente Médio antes que as 24 horas do visto expirem — seja qual for o placar.
"Estamos tão perto do estádio Azteca, a 100 metros, mas tão longe de entrar por causa do preço exorbitante dos ingressos", disse Orelio Mecinas, morador de Santa Úrsula que viu o Brasil ser tricampeão no Azteca em 1970.








