Vinte e cinco anos é tempo suficiente para uma geração inteira de atletismo surgir, amadurecer e se aposentar. Maurren Maggi estabeleceu seu recorde brasileiro nos 100m com barreiras em maio de 2001 — quando boa parte das atuais atletas brasileiras ainda engatinhava. Neste sábado (28), no Centro Nacional Loterias Caixa, em Bragança Paulista (SP), Vitória Sena encerrou essa espera com um tempo de 12s69, derrubando a marca histórica de 12s71 e entrando de vez no cenário mundial da modalidade.

Um recorde dentro do limite

A corrida aconteceu na final do 5º Troféu Adhemar Ferreira da Silva e foi homologada pela World Athletics com velocidade do vento de exatamente 2 m/s — o teto permitido para validação de recordes. Qualquer décimo a mais tornaria o tempo inválido para fins históricos. Vitória cruzou a linha, olhou para o placar e desabou. A atleta do Praia Clube, de Uberlândia, chorou copiosamente antes mesmo de conseguir formular palavras para a imprensa.

"É muito gratificante. O trabalho que venho fazendo com o técnico Katsuhico Nakaya tá dando resultado. Foi uma base intensa. Treinamos muito e o resultado está aí. É algo que venho almejando e imaginando desde que eu era adolescente, sub-20. Não tenho nem palavras. A ficha tá caindo aos poucos."

A evolução de Vitória ao longo de 2025 conta uma história de construção progressiva. Em abril, ela quebrou seu próprio recorde pessoal com 12s85 em uma competição na Argentina. Na semifinal do mesmo Troféu Adhemar, replicou a marca: outros 12s84. Na final, deu um salto de quinze centésimos em relação ao seu melhor anterior — uma melhoria expressiva para uma prova de 12 segundos.

Onde Vitória se posiciona no mundo

O tempo de 12s69 coloca a brasileira na segunda posição mundial na temporada, atrás apenas da sul-africana Marione Fourie, que lidera com 12s67. Para efeito de comparação direta com o topo absoluto da modalidade, a campeã olímpica de Tóquio, a jamaicana Jasmine Camacho-Quinn, venceu o ouro com 12s26 — uma diferença de 43 centésimos em relação à marca atual de Vitória. Na América do Sul, apenas duas atletas da história correram mais rápido nos 100m com barreiras, posicionando Vitória como terceira melhor sul-americana de todos os tempos na prova.

A análise do SportNavo mostra que a janela de índice para os Jogos de Paris era de 12s84 — marca que Vitória já havia atingido em abril, antes mesmo do recorde. Com 12s69, ela não apenas confirmou a classificação como apresentou credencial técnica para disputar as semifinais olímpicas com competitividade real.

O que os números dizem sobre Paris

Nos Jogos de Tóquio, a finalista que terminou em oitavo lugar, a norte-americana Nia Ali, cruzou a linha em 12s56. A diferença de 13 centésimos entre Vitória e esse patamar de final olímpica existe, mas não é intransponível — especialmente considerando que a brasileira cortou 16 centésimos do próprio recorde pessoal ao longo de apenas três meses de competição. Em 2024, o cenário de apostas internacionais para barreiras femininas coloca Camacho-Quinn como favorita a repetir o ouro, com odds em torno de 2.50 nas principais casas europeias; Vitória, ainda sem cotação explícita nas plataformas globais, figura como nome emergente no radar dos analistas especializados.

"Só pensei em fazer a prova um pouco mais rápida, ir acelerando e encaixando as barreiras uma por uma", completou Vitória ao descrever sua estratégia de corrida na final.

O treinador Katsuhico Nakaya é peça central nessa equação. De origem japonesa e com reconhecida metodologia de volume intenso de treino, Nakaya acompanha Vitória há tempo suficiente para ter construído com ela um recorde pessoal nos 60m com barreiras indoor de 8s08, obtido no início de 2025 e que garantiu à atleta vaga no Mundial indoor disputado na Polônia em março. A atleta chegou a Paris com evolução documentada em três distâncias diferentes, o que sugere base técnica sólida e não apenas pico isolado de forma.

O peso da herança que caiu

Maurren Maggi é o maior nome do atletismo brasileiro feminino moderno — campeã olímpica no salto em distância em Pequim 2008, recordista mundial da modalidade com 7,26m. Ter o nome dela associado a qualquer recorde nacional conferia peso institucional à marca. Vitória Sena, nascida em 1996 e com 28 anos completos, não derrubou apenas um número: encerrou um ciclo de uma geração e sinalizou que o Brasil tem barreirista para disputar pódio em nível continental e semifinal em nível olímpico. Os Jogos de Paris começam em 26 de julho, com a fase classificatória dos 100m com barreiras femininos programada para o início de agosto — prazo que ainda permite uma ou duas competições de ajuste fino para Vitória e Nakaya calibrarem a largada e o ritmo entre barreiras.