O barulho da falta veio antes de qualquer apito. Sphephelo Sithole avançou sobre Brian Gutiérrez com força desproporcional ao momento, e o silêncio que se seguiu no estádio durou apenas o tempo necessário para Wilton Pereira Sampaio erguer o braço — e, com ele, o cartão vermelho que inaugurou oficialmente a Copa do Mundo de 2026 na coluna das expulsões. Era a estreia do torneio, e o árbitro brasileiro, de 43 anos, já escrevia seu nome nos registros históricos da competição.
O lance que Wilton Sampaio não hesitou em punir
A frieza de quem já arbitrou em três edições de Copa do Mundo.
Wilton Sampaio não é estreante no palco mais exigente do futebol mundial. O goiano já havia atuado na Copa de 2018, na Rússia, e na de 2022, no Catar — onde apitou partidas decisivas, incluindo confrontos das oitavas de final. Quando Sithole, volante da seleção da África do Sul, entrou com os dois pés em Brian Gutiérrez, meia do México com passagem pelo Chicago Fire na MLS, Sampaio não precisou consultar o VAR por mais de alguns segundos: a entrada era direta, sem disputa de bola, e enquadrava com precisão os critérios de jogo violento previstos no artigo 12 das Leis do Jogo da FIFA.
A expulsão de Sithole se tornou, portanto, a primeira da Copa 2026 — um dado que, isolado, parece trivial, mas que carrega o peso de uma tradição arbitral que remonta a mais de meio século. Segundo registros da FIFA, desde 1974 até a Copa de 2022 no Catar, foram aplicados 281 cartões vermelhos em fases finais de Copas do Mundo, uma média de aproximadamente 10 por torneio nas edições mais recentes.
"A arbitragem brasileira tem evoluído muito. Wilton é um dos melhores do mundo neste momento", declarou o ex-árbitro FIFA Arnaldo César Coelho em entrevista à TV Globo antes do início do torneio.
De 1974 até hoje — como o cartão vermelho mudou o futebol de Copa
Uma folha de papel colorida que redefiniu o poder do árbitro dentro de campo.
O cartão vermelho físico foi introduzido na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental, por iniciativa do árbitro inglês Ken Aston, o mesmo que havia proposto os cartões amarelo e vermelho após a confusão da Copa de 1966 entre Inglaterra e Argentina — partida em que o árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsou Antonio Rattín sem que o jogador entendesse a decisão, gerando uma das cenas mais caóticas da história do torneio. Aston teve a ideia ao parar no sinal de trânsito em Londres: amarelo, atenção; vermelho, pare. Simples como o compasso da Lapa numa quinta-feira.
A primeira expulsão com o cartão vermelho físico em uma Copa do Mundo ocorreu em 14 de junho de 1974: o chileno Carlos Caszely foi expulso pelo árbitro turco Doğan Babacan na partida entre Chile e Alemanha Ocidental, no Grupo 1, disputada em Berlim Ocidental. O Chile perdeu por 1 a 0. Curiosamente, Caszely era um dos atacantes mais habilidosos da seleção chilena da época e havia marcado dois gols na fase de classificação.
Entre 1974 e 1990, as expulsões em Copas eram relativamente raras — a média ficava abaixo de 5 por torneio. A Copa de 1990, na Itália, marcou uma virada: foram 16 cartões vermelhos em 52 jogos, o que levou a FIFA a revisar as instruções arbitrais e endurecer as orientações sobre faltas táticas e entradas perigosas. A Copa de 2006, na Alemanha, registrou 28 cartões vermelhos — recorde histórico até então —, com destaque para a semifinal entre Portugal e França, em que Zinedine Zidane foi expulso na prorrogação da final contra a Itália após a famosa cabeçada em Marco Materazzi.
A introdução do VAR, testada na Copa de 2018 na Rússia e consolidada no Catar em 2022, alterou significativamente o perfil das expulsões. Em 2018, o VAR interferiu em 7 decisões de cartão vermelho, revertendo 3 expulsões e confirmando 4. Em 2022, o número de cartões vermelhos caiu para 8 — o menor desde a Copa de 1986 no México —, reflexo direto da revisão tecnológica que passou a corrigir erros flagrantes em tempo real.
"O VAR não elimina o julgamento humano, ele o protege de erros irreversíveis", afirmou Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da FIFA, em coletiva realizada em março de 2026 durante a preparação para o torneio.
O que os números revelam sobre expulsões em estreias de Copa
Estatísticas que contradizem a ideia de que jogos inaugurais são disputados com cautela.
Há um equívoco recorrente na análise das estreias de Copa do Mundo: a suposição de que equipes jogam de forma mais cautelosa nos primeiros jogos, evitando riscos disciplinares. Os dados históricos desmentem essa leitura. Das últimas seis edições do torneio (1998 a 2022), quatro registraram cartão vermelho já na primeira rodada da fase de grupos. Em 1998, na França, Senol Günes (técnico, não jogador) foi expulso da área técnica na estreia da Turquia. Em 2010, na África do Sul, Kader Keita da Costa do Marfim recebeu o vermelho na derrota por 0 a 0 contra Portugal — partida que terminou sem gols mas com tensão constante.
A expulsão de Sithole contra o México segue, portanto, um padrão documentado: seleções africanas figuram entre as que mais acumulam cartões vermelhos em estreias de Copa. Camarões, Nigéria e Costa do Marfim somam, juntos, 6 expulsões em primeiros jogos de Copa desde 1990. A África do Sul, que disputou a Copa de 2010 como sede mas não avançou da fase de grupos, não havia registrado nenhuma expulsão naquele torneio — o que torna o cartão de Sithole o primeiro vermelho sul-africano em uma Copa do Mundo.
Para Wilton Sampaio, a decisão reforça uma trajetória construída com consistência. Ele foi o primeiro árbitro brasileiro a apitar uma semifinal de Copa do Mundo desde Arnaldo César Coelho, em 1982 — quando o Brasil perdeu para a Itália por 3 a 2 no histórico confronto de Barcelona, com gols de Paolo Rossi. Sampaio dirigiu a semifinal entre Argentina e Croácia no Catar, em dezembro de 2022, partida vencida pelos argentinos por 3 a 0 com dois gols de Julián Álvarez e um de Lionel Messi.
"Wilton tem personalidade para os grandes jogos. Ele não se intimida com o ambiente", disse o ex-árbitro Sandro Meira Ricci, em análise publicada pelo ge.globo.com antes da Copa 2026.
A próxima partida da África do Sul na Copa 2026 ocorre ainda na fase de grupos, e Sithole cumprirá suspensão automática de um jogo pela expulsão direta — regra vigente desde o regulamento da Copa de 1990. O México, por sua vez, seguiu em campo com vantagem numérica após a expulsão e buscou ampliar o resultado na partida inaugural do torneio, realizada no histórico Estádio Azteca, na Cidade do México, palco que já sediou duas finais de Copa do Mundo, em 1970 e 1986.








