10 vitórias, 5 empates e 1 derrota em 16 jogos eliminatórios. Esse é o número que resume o feito mais improvável desta Copa do Mundo: a classificação inédita do Uzbequistão, seleção que jamais havia disputado um Mundial e que chega à Cidade do México carregando a marca digital de um campeão italiano. Fabio Cannavaro, o zagueiro que ergueu a taça em Berlim em julho de 2006, construiu em Tashkent algo que nenhum treinador havia conseguido antes.
O número que o Uzbequistão levou 30 anos para construir
A seleção centro-asiática encerrou as Eliminatórias da AFC com apenas 11 gols sofridos em 16 partidas — a segunda melhor defesa do processo classificatório asiático, atrás do Japão. Cinco dessas vitórias foram por 1 a 0, o placar preferido de uma equipe que aprendeu a ganhar sem desperdiçar energia. O Uzbequistão terminou em segundo lugar no grupo, atrás do Irã, mas o aproveitamento de 68,75% foi suficiente para garantir a vaga direta.
A construção desse sistema defensivo é assinatura reconhecível de Cannavaro. O técnico, que acumulou passagens por Al-Ahli, Guangzhou Evergrande e Al-Nassr antes de assumir o cargo em Tashkent, transplantou para a Ásia central a disciplina posicional que aprendeu ao lado de Marcello Lippi na Azzurra. Segundo o próprio Cannavaro em entrevistas ao longo da campanha, o objetivo era criar uma identidade coletiva antes de qualquer ambição individual.
"Quando cheguei, o Uzbequistão tinha qualidade, mas não tinha mentalidade de Copa do Mundo. Trabalhamos isso todos os dias", declarou Cannavaro em coletiva antes do embarque para o México.
O ranking FIFA posiciona o Uzbequistão na 51ª colocação — número modesto, mas que esconde uma evolução consistente. Em 2019, a seleção ocupava a 88ª posição. O salto de 37 posições em sete anos é, em grande parte, reflexo do trabalho iniciado sob a gestão do ex-capitão da Itália.
A Colômbia que voltou com Luis Díaz na mira
Do outro lado do gramado no Estádio Azteca nesta quarta-feira, 17 de junho, estará uma Colômbia que retorna ao Mundial após a ausência dolorosa no Catar 2022. A seleção de Néstor Lorenzo terminou as Eliminatórias sul-americanas em terceiro lugar, com 7 vitórias, 7 empates e 4 derrotas — um aproveitamento de 56,6% que gerou debate interno, mas garantiu a classificação com folga.
Luis Díaz foi o artilheiro colombiano no ciclo, com 7 gols nas Eliminatórias. O atacante do Liverpool chega ao torneio como a principal referência ofensiva de um elenco que marcou 28 gols no processo classificatório — segundo maior volume da CONMEBOL, atrás apenas da Argentina. Jhon Arias, que balançou as redes duas vezes no amistoso preparatório contra a Jordânia (2 a 0), aparece como alternativa criativa no meio-campo.
"Queremos mostrar que a Colômbia de 2026 é mais madura do que a de 2014", afirmou Lorenzo em entrevista à imprensa colombiana na véspera da estreia, referenciando a campanha que levou a seleção às quartas de final no Brasil.
Os amistosos preparatórios revelaram duas faces da Colômbia. A vitória por 3 a 1 sobre a Costa Rica e o 2 a 0 contra a Jordânia indicam solidez contra adversários de nível médio. Já as derrotas para Croácia (1 a 2) e França (1 a 3) em março expuseram vulnerabilidades na transição defensiva — exatamente o tipo de espaço que o Uzbequistão de Cannavaro sabe explorar em contra-ataques organizados.
O Grupo K e o que 17 de junho projeta para ambas as seleções
O Grupo K reúne quatro seleções com histórias radicalmente distintas. Portugal, com Cristiano Ronaldo em sua provável última Copa, entra como favorito natural. A República Democrática do Congo, retornando ao Mundial após 52 anos, representa o imprevisível africano. Colômbia e Uzbequistão disputam, na prática, a segunda vaga — e o duelo desta quarta-feira pode definir quem chega com vantagem psicológica ao restante da fase de grupos.
Os amistosos pré-Copa trouxeram sinais de alerta para o lado uzbeque. A derrota por 2 a 0 para o Canadá e o revés por 2 a 1 para a Holanda em Nova York mostraram que a solidez asiática encontra resistência quando o adversário tem mais posse e velocidade de transição — características que a Colômbia também possui com Díaz e Arias em campo. As duas seleções nunca se enfrentaram na história, o que torna qualquer projeção baseada apenas em padrões históricos incompleta.
Conforme registrado pelo SportNavo, o Uzbequistão é a seleção estreante com a campanha classificatória mais sólida desta edição do Mundial — superando em aproveitamento outras estreantes como Guiné e Timor-Leste. Cannavaro, que ergueu uma Copa como jogador, tenta agora escrever um capítulo diferente: o de técnico que colocou uma nação no mapa do futebol mundial pela primeira vez.
A partida entre Uzbequistão e Colômbia acontece nesta quarta-feira, 17 de junho, no Estádio Azteca, às 16h (horário de Brasília). Uma vitória colombiana praticamente encaminha a classificação; uma vitória uzbeque abriria o Grupo K de maneira imprevisível e colocaria Cannavaro em conversas que vão muito além da Ásia central. Em 17 de junho saberemos qual dos dois roteiros esta Copa vai escrever.








