Diz-se que a rivalidade mais repetida na história das Copas do Mundo pertence às finais entre Argentina e Alemanha. Na verdade, não pertence — e o motivo importa. Argentina e Alemanha protagonizaram três finais (1986, 1990 e 2014), mas Brasil e Suécia se encontraram em sete ocasiões distintas, distribuídas por seis décadas, em fases que vão da disputa de terceiro lugar a finais e semifinais. Nenhuma outra dupla de seleções acumula tantos reencontros no torneio mais assistido do planeta.

Um século de confrontos entre amarelo e azul-e-amarelo

O primeiro capítulo foi escrito em 19 de junho de 1938, no Parque des Princes, em Paris. O Brasil de Leônidas da Silva — artilheiro da competição com oito gols — enfrentou a Suécia na disputa do terceiro lugar e venceu por 4 a 2. Aquele time brasileiro chegara à semifinal pela primeira vez na história, eliminando a Tchecoslováquia em jogo repleto de confusão, e a vitória sobre os suecos consolidou uma geração que ainda não tinha nome, mas já tinha personalidade.

Doze anos depois, no Copa do Mundo de 1950, disputada em solo brasileiro, o confronto ganhou proporções épicas: Brasil 7 a 1 sobre a Suécia, na fase final do torneio que usava o formato de grupo em vez de eliminatórias diretas. O jogo foi realizado no Maracanã, em 9 de julho, diante de mais de 138 mil torcedores. Aquela goleada permanece como a maior diferença de placar entre as duas seleções em Mundiais — e também como o pico de confiança de um Brasil que, quatro dias depois, sofreria a derrota mais dolorosa de sua história contra o Uruguai.

Estocolmo, 1958 — a tarde em que o Brasil virou potência global

A final de 29 de junho de 1958, no Råsunda Stadium, em Estocolmo, é o ponto gravitacional de toda essa série histórica. O Brasil de Vicente Feola — com Garrincha, Didi, Vavá e um adolescente de 17 anos chamado Edson Arantes do Nascimento — venceu a Suécia por 5 a 2 diante de 49.737 espectadores e 800 milhões de ouvintes no rádio ao redor do mundo. Pelé marcou dois gols, incluindo aquele que virou símbolo: o levantamento do defensor, o toque de calcanhar e a finalização de voleio antes que a bola tocasse o chão. A Suécia havia aberto o placar com Liedholm aos 4 minutos, mas o Brasil respondeu com cinco gols em sequência. Nenhum título anterior — nem 1950 foi conquistado — havia dado ao país aquela dimensão internacional. Como o movimento que começa na Avenida Rio Branco e chega ao Pelourinho sem perder força, a notícia daquele resultado percorreu o Brasil inteiro antes que a transmissão terminasse.

Em 1978, na Argentina, o Brasil de Cláudio Coutinho empatou em 1 a 1 com a Suécia na primeira rodada do segundo grupo, em 3 de junho, no Estádio Olímpico de Buenos Aires. O resultado foi suficiente para o Brasil avançar, mas insuficiente para conquistar o título — a seleção terminou a competição em terceiro lugar, atrás da Argentina e da Holanda.

Itália 1990 e os dois encontros de 1994 que fecharam o ciclo

A Copa de 1990, na Itália, trouxe o sexto encontro: Brasil 2 a 1 sobre a Suécia, em 10 de junho, em Turim, na fase de grupos. O time de Sebastião Lazaroni venceu, mas foi eliminado nas oitavas de final pela Argentina de Maradona, num dos resultados mais traumáticos do futebol brasileiro do século XX.

O ano de 1994 concentrou os dois últimos capítulos dessa série. Na fase de grupos, em 28 de junho, no Silverdome, em Pontiac (Michigan), o empate em 1 a 1 classificou ambas as seleções para as oitavas. Mas foi a semifinal de 13 de julho, no Rose Bowl, em Pasadena, que encerrou a rivalidade com a imagem mais precisa: Romário recebeu cruzamento de Mazinho, girou sobre o marcador sueco e finalizou com precisão cirúrgica para o único gol do jogo. O Brasil chegou à final e conquistou o tetracampeonato três dias depois, nos pênaltis contra a Itália. A Suécia terminou em terceiro lugar, vencendo a Bulgária por 4 a 0 na disputa do bronze.

Um século de confrontos entre amarelo e azul-e-amarelo 7 vezes que Brasil e Suéc
Um século de confrontos entre amarelo e azul-e-amarelo 7 vezes que Brasil e Suéc
"Esse gol foi dos mais importantes da minha carreira. A Suécia era uma equipe organizada, difícil de bater, e a semifinal poderia ter ido para qualquer lado", disse Romário em entrevistas posteriores sobre o gol que decidiu a vaga na final de 1994.

Wilton Sampaio abre a Copa 2026 enquanto a história espera novo capítulo

O retrospecto completo entre as duas seleções registra cinco vitórias do Brasil, dois empates e nenhuma derrota — um aproveitamento de 78,6% considerando três pontos por vitória. A maior goleada foi o 7 a 1 de 1950; o placar mais repetido foi o 1 a 1, registrado em 1978 e na fase de grupos de 1994.

Enquanto esse capítulo aguarda continuação, a Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira, 11 de junho, com México x África do Sul às 16h (horário de Brasília), no Estádio Azteca. O árbitro escolhido pela FIFA para o jogo de abertura é o brasileiro Wilton Pereira Sampaio, auxiliado pelos compatriotas Bruno Pires e Bruno Boschilia. Sampaio já havia apitado jogos no Mundial do Catar em 2022 e integrado a equipe de VAR na estreia da tecnologia em Mundiais, na Rússia em 2018. O Brasil estreia no sábado, 13 de junho, às 19h, contra Marrocos, com transmissão pelo SBT, Globo, ge TV, Globoplay, N Sports, SporTV e CazéTV. A Suécia, por sua vez, abre sua campanha no domingo, 14 de junho, às 23h, contra a Tunísia, pelo Grupo F, com transmissão pela Globo, Globoplay e SporTV.

As duas seleções estão em grupos diferentes — Brasil no Grupo C, Suécia no Grupo F — e só se reencontrariam a partir das oitavas de final. Seriam 32 anos de espera desde Pasadena. O Rose Bowl, 13 de julho de 1994: Romário gira, chuta, a rede balança, e 94 mil pessoas ficam em silêncio por um segundo inteiro antes de o barulho engolir tudo.