'Esse gramado não tem mínimas condições para se fazer mais do que isso.' A frase de Artur Jorge, proferida em entrevista ao SporTV antes do apito inicial no Baenão, em Belém, resumiu um problema que vai muito além do duelo entre Remo e Cruzeiro pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro, disputado neste sábado (25). O técnico português não apenas reclamou — ele nomeou o problema com precisão cirúrgica, comparando o gramado paraense a uma 'grama de jardim', e colocou na mesa uma discussão que a CBF há anos tenta varrer para debaixo do tapete.
A declaração que escancarou um problema estrutural
Artur Jorge foi categórico ao SporTV ainda no aquecimento das equipes. O técnico celeste deixou claro que o pedido que fez ao grupo era simplesmente 'ser competitivo', dado que o nível do gramado tornava inviável qualquer proposta técnica mais elaborada.
"Esse campo não tem condições nenhuma para jogar. Esse gramado, muito sinceramente, acho que não é o padrão que queremos para o futebol brasileiro. É facilmente visível que o que vamos pedir pra equipe é ser competitiva, porque vamos jogar em uma grama de jardim, que não tem mínimas condições para se fazer mais do que isso", disparou o treinador.
O técnico ainda se preocupou em blindar o Remo de qualquer culpa direta pela situação. Na sequência da mesma entrevista, Jorge reconheceu que o clube bicolor também é vítima das circunstâncias.
"É o que lamento, porque acredito que o Remo não tem culpa nenhuma, não sei de quem é, mas nós também não temos", completou Artur Jorge.
E ele estava certo ao isentar o Remo. O clube paraense utilizou o Baenão pela primeira vez como mandante nesta edição do Brasileirão porque o Mangueirão, que serviu de palco para as cinco rodadas anteriores em casa, está reservado para o show da banda americana Guns N' Roses. A troca de arena não foi uma escolha da diretoria bicolor — foi uma imposição da agenda de eventos do estádio público, o que expõe a fragilidade da infraestrutura disponível para clubes recém-promovidos à elite do futebol nacional.
Arroyo decide, Cruzeiro vence apesar das circunstâncias
A despeito do gramado degradado e de três desfalques de peso — Matheus Pereira, Fabrício Bruno e Lucas Silva, todos suspensos — o Cruzeiro saiu com os três pontos. Aos 33 minutos do primeiro tempo, Arroyo carregou pela esquerda, se aproximou da área e bateu cruzado para abrir o placar. O placar de 1 a 0 se manteve até o apito final do árbitro Wilton Pereira Sampaio, de Goiás.
Para o Remo, o resultado aprofunda uma campanha irregular no Brasileirão: apenas uma vitória em 13 rodadas. O desempenho contrasta com a Copa do Brasil, onde o clube surpreendeu ao bater o Bahia por 3 a 1 fora de casa na semana anterior. O atacante Taliari, principal referência ofensiva de Léo Condé, ficou de fora da partida, e Poveda foi improvisado no time titular.
O padrão de gramados no Brasileirão sob escrutínio
A crítica de Artur Jorge não nasce no vácuo. A apuração do SportNavo mostra que a CBF exige, em seu regulamento geral de competições, que os clubes mantenham gramados com altura máxima de 30 milímetros e cobertura mínima de 75% da superfície jogável. No entanto, as penalidades aplicadas por descumprimento raramente ultrapassam multas simbólicas, que não chegam a R$ 50 mil na maior parte dos casos — valores que funcionam como custo operacional, não como desincentivo real para clubes com orçamentos menores.
A situação do Baenão ilustra um dilema recorrente da Série A: clubes que sobem da segunda divisão sem infraestrutura compatível com a elite. O Remo, promovido ao final de 2024, tem orçamento estimado em torno de R$ 80 milhões para a temporada, valor que representa menos de 10% do que clubes como Cruzeiro e Palmeiras destinam apenas ao departamento de futebol. Exigir que esse mesmo clube mantenha gramado sintético de última geração ou campo natural com irrigação automatizada é ignorar a desigualdade econômica que estrutura o próprio campeonato.
O que a CBF pode — e deveria — fazer
A questão dos gramados integra um debate mais amplo sobre licenciamento de clubes, mecanismo que a CBF implementou parcialmente mas que ainda não tem força vinculante suficiente para impedir que partidas da Série A sejam realizadas em campos abaixo do padrão mínimo. A análise do SportNavo aponta que países como Argentina e México exigem vistoria técnica independente do gramado até 72 horas antes de cada partida, com poder de interdição do campo caso os índices de densidade e firmeza não sejam aprovados — modelo que o futebol brasileiro ainda não adotou formalmente.
A solução de curto prazo passaria pela criação de um fundo de modernização de infraestrutura vinculado à distribuição dos direitos de transmissão do Brasileirão — contrato que, na negociação vigente com Globo e Cazé TV, soma mais de R$ 4 bilhões por temporada. Reservar 2% desse montante para um programa de certificação de gramados já representaria mais de R$ 80 milhões anuais disponíveis para clubes como Remo, Juventude e Mirassol adequarem suas instalações sem depender exclusivamente de receitas próprias.
O Cruzeiro volta a campo na quarta-feira (28), quando recebe o Boca Juniors às 21h30, no Mineirão, pela fase de grupos da Conmebol Libertadores — transmissão exclusiva pelo plano premium do Disney+. No sábado seguinte (3 de maio), a Raposa enfrenta o Atlético-MG no clássico mineiro pelo Brasileirão. O Remo, por sua vez, joga na quinta-feira (29) contra o Galvez, às 19h, pela Copa Verde, antes de encarar o Botafogo fora de casa no dia 2 de maio, pela 14ª rodada da Série A.








