Diz-se que a França de Didier Deschamps é uma seleção que depende do coletivo para funcionar. Nesta terça-feira, em Nova Jersey, o coletivo demorou 45 minutos para aparecer — e foi Kylian Mbappé quem salvou os Bleus da vergonha de um primeiro tempo apagado. O capitão francês marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 sobre Senegal, chegou a 14 gols em três Copas do Mundo e se tornou o terceiro maior artilheiro da história do torneio — tudo isso enquanto ignorava, com elegância calculada, uma legião de detratores que apostava no seu fracasso.

O primeiro tempo que a França prefere esquecer

O MetLife Stadium, que três dias antes havia recebido o empate entre Brasil e Marrocos, assistiu a uma França irreconhecível nos primeiros 45 minutos. O Senegal — finalista da última Copa Africana das Nações — levou perigo em lances que expuseram a desorganização defensiva francesa, enquanto Mbappé circulava pelo ataque sem encontrar espaços. Deschamps optou por ajustes táticos no intervalo: Olise passou a atuar mais pelo meio e Barcola entrou no lugar de Dembelé, redesenhando o poder ofensivo da equipe.

O efeito foi imediato. Aos 21 minutos do segundo tempo, Olise lançou Mbappé em profundidade e o camisa 10 abriu o placar com precisão clínica. Aos 37, Barcola recebeu de Rabiot e tocou por cima do goleiro Edouard Mendy para ampliar. O Senegal ainda diminuiu nos acréscimos com Ibrahim Mbayé, 18 anos, que avançou pela direita e chutou forte no ângulo de Mike Maignan — um gol que, por um instante, reacendeu a esperança africana. No minuto seguinte, Mbappé liquidou qualquer dúvida com um chute de fora da área que não deixou resposta ao goleiro senegalês.

"Eu acho que não estamos totalmente presentes, mas é muito bom começar a competição com mais tranquilidade. Mas numa Copa do Mundo nunca estamos tranquilos. As duas equipes são fortes, sabemos que todos querem ganhar e fazer um bom jogo. De início não foi muito claro, mas depois começamos a ganhar", avaliou Mbappé na saída do campo.

Dois gols que reescrevem a história do torneio

O segundo gol teve um peso que vai além do placar. Com ele, Mbappé chegou a 58 gols com a camisa da seleção francesa, superando Olivier Giroud (57) como o maior artilheiro da história dos Bleus. Mas o recorde que redefine sua posição na galeria dos imortais do futebol mundial é outro: os 14 tentos acumulados em três edições de Copa do Mundo o colocam à frente de Just Fontaine, que marcou 13 gols em um único Mundial — o de 1958, na Suécia — numa marca que resistiu por 68 anos sem ser alcançada por um jogador francês.

Na tabela histórica de artilheiros do torneio, Mbappé agora só fica atrás de Ronaldo Fenômeno (15 gols) e Miroslav Klose (16). Com a Copa do Mundo de 2026 ainda em sua fase inicial e o capitão francês com 27 anos e no auge físico, a matemática coloca o recorde absoluto do alemão dentro do horizonte de possibilidades reais — algo que seria injusto chamar de inevitável, mas que ninguém mais descarta com a mesma convicção de antes.

A França, com a vitória, assumiu a liderança do Grupo I, à frente de Iraque, Noruega e Senegal.

Quanto tempo um atacante precisa ignorar críticas antes de se tornar lenda?

A pergunta não é retórica apenas para provocar — ela estrutura o momento que Mbappé vive. O atacante chegou à Copa do Mundo de 2026 sob uma pressão incomum para alguém de seu currículo: questionamentos sobre sua forma física, sobre sua relação com o vestiário do Real Madrid e sobre sua capacidade de liderar a seleção em momentos decisivos. Na saída do campo em Nova Jersey, ele respondeu com a frieza de quem já passou por isso antes.

"Não se trata de vingança. Se eu jogar para todas as pessoas que me criticam, teria que jogar até os 80 anos. Eu faço parte da história do meu país. É um prazer ver minha equipe. Quero que chegue à final e ganhe a Copa do Mundo", disse o atacante, campeão em 2018 e vice-campeão em 2022.

Seria exagerado chamar essa postura de blindagem psicológica de elite — mas é, em escala doméstica, uma armadura que poucos atletas conseguem construir sem que ela vire arrogância. Mbappé equilibra o reconhecimento da atuação abaixo do esperado no primeiro tempo com a frieza de quem sabe que os números falam mais alto do que qualquer narrativa adversa.

Kane valida, Haaland divide a artilharia e o torneio ganha seus protagonistas

Enquanto Mbappé deixava o gramado do MetLife Stadium, Harry Kane concedia entrevista à imprensa antes da estreia da Inglaterra. O centroavante do Bayern de Munique, um dos atacantes mais completos da geração, foi direto ao ponto quando questionado sobre os melhores do torneio.

"Erling e, claro, o Mbappé, que marcou dois gols pela França mais cedo. Acho que você olha para esses dois e vê que eles tiveram temporadas fantásticas como artilheiros, como centroavantes — dois dos melhores jogadores. Eles obviamente começaram o torneio muito bem hoje", declarou Kane.

O norueguês citado por Kane é Erling Haaland, que na mesma rodada marcou dois gols na goleada da Noruega por 4 a 1 sobre o Iraque. Os dois dividem a artilharia da Copa com Ayari (Suécia), Just (Nova Zelândia), Havertz (Alemanha) e Balogun (Estados Unidos), todos com dois gols. A corrida pela chuteira de ouro já tem seus favoritos declarados — e a rivalidade entre Mbappé e Haaland promete ser um dos fios condutores narrativos do torneio.

Olise, eleito o melhor jogador em campo contra o Senegal, foi o principal arquiteto da virada francesa com sua assistência para o primeiro gol e sua movimentação que desequilibrou a defesa africana. A França volta a campo pelo Grupo I para enfrentar a Noruega — e um duelo direto entre Mbappé e Haaland, os dois artilheiros mais badalados do planeta, pode acontecer já nas oitavas de final, dependendo da classificação dos grupos.