É uma faca que nunca enferrujou.
Quem acompanhou o treino da seleção argelina em Sorocaba, interior de São Paulo, nesta última segunda-feira, viu algo que vai além de passes e dribles: viu um time carregando 44 anos de história nas chuteiras. Policiais militares cercavam o estádio municipal Walter Ribeiro enquanto ônibus despejavam estudantes e crianças ansiosas para ver os Fennecs de perto. Lá dentro, o técnico Vahid Halilhodzic distribuía instruções em voz alta, com a intensidade de quem sabe que o próximo jogo não é apenas uma partida — é uma revanche histórica. A Copa do Mundo de 2026 colocou a Argélia frente a frente com a Alemanha nas oitavas de final, e o mundo árabe inteiro parou para respirar fundo.
O dia em que Gijón parou e a Argélia virou o mundo de cabeça para baixo
16 de junho de 1982. O Estádio El Molinón, em Gijón, na Espanha, recebeu 42 mil torcedores para assistir ao que parecia uma formalidade: Alemanha Ocidental contra a estreante Argélia na 12ª edição da Copa do Mundo. O técnico alemão Jupp Derwall chegou a declarar que pegaria o primeiro trem para Munique se perdesse. Um jogador do elenco germânico foi ainda mais longe, prometendo dedicar o sétimo gol às esposas e o oitavo aos cachorros. A soberba durou menos de noventa minutos.
Rabeh Madjer e Lakhdar Belloumi desmontaram a Alemanha Ocidental de Karl-Heinz Rummenigge, Paul Breitner e Lothar Matthäus. A Argélia venceu por 2 a 1 naquele 16 de junho — uma das maiores zebras da história das Copas. O que veio depois ficou marcado como o Jogo da Vergonha: Alemanha e Áustria jogaram entre si sabendo que um placar de 1 a 0 para os alemães eliminaria a Argélia sem que nenhuma das duas europeias caísse. O resultado final foi exatamente esse. A Argélia, com mais pontos do que a Áustria, foi para casa. O episódio forçou a FIFA a adotar jogos simultâneos na última rodada das fases de grupos — uma regra que existe até hoje por causa dos argelinos.
"Esperamos fazer a melhor apresentação da Argélia, do mundo árabe e da África em uma Copa do Mundo. Nosso principal objetivo é passar para a segunda fase", afirmou Mohamed Raouraoua, presidente da Federação Argelina de Futebol.
A geração de 2026 que carrega um nome e uma missão
Vahid Halilhodzic montou um elenco diferente de tudo que a Argélia já levou a um Mundial. A novidade que concentra os holofotes é Luca Zidane, filho de Zinedine Zidane, que assumiu a titularidade no gol. Crescido na academia do Real Madrid, Luca herdou o sobrenome mais carregado do futebol franco-argelino — e a pressão que vem com ele. Mas Halilhodzic não construiu o time em torno de um nome. O elenco conta com jogadores formados em clubes como Inter de Milão, Porto e Sport Lisboa, com experiência europeia suficiente para não se intimidar diante de qualquer adversário.
O jornalista argelino Djamal Ouaglal, do periódico Infosoir, resumiu bem o clima antes da Copa:
"O time da Argélia veio para a Copa do Mundo para algo histórico, porque a Argélia não passou da primeira fase nas três vezes em que disputou o Mundial. Este ano, a seleção tem um bom potencial. Temos bons jogadores, que vêm de grandes clubes na Europa. Os jogadores podem fazer a diferença."
A campanha na fase de grupos confirmou o otimismo. A Argélia chegou às oitavas pela primeira vez em sua história — feito que não acontecia para nenhuma seleção árabe havia duas décadas. O empate contra a Rússia foi o ponto de virada: um resultado que transformou a expectativa em certeza e colocou os Fennecs no mapa do torneio de vez.
Quanto vale, afinal, um fantasma de 44 anos quando você entra em campo?
O que Halilhodzic precisa acertar para repetir 1982
A Alemanha de 2026 não é a de Rummenigge, mas também não é frágil. Chega às oitavas com um meio-campo físico e uma linha defensiva organizada, favorita clara no papel. A Argélia, como em 1982, vai precisar de velocidade nas transições, compactação defensiva e — talvez o ingrediente mais raro — a coragem de jogar sem respeito excessivo. Em matéria do SportNavo publicada durante a fase de grupos, a análise táctica já indicava que os Fennecs sufocam adversários quando pressionam alto nos primeiros 20 minutos.
Halilhodzic tem histórico de montar times difíceis de bater em jogos únicos. Seu trabalho com Marrocos e Costa do Marfim mostrou que ele entende de Copa do Mundo — do ritmo diferente, da carga emocional, do peso de representar um continente inteiro. A Argélia não entra em campo apenas por ela. Entra pelo mundo árabe, que não via uma seleção sua nas oitavas há duas décadas, e entra carregando a memória de uma injustiça que a própria FIFA reconheceu ao mudar suas regras.
O jogo está marcado para 22 de junho, em Dallas, no AT&T Stadium. Calor seco, mais de 80 mil lugares, e a Alemanha do outro lado. Se em 1982 a Argélia virou Gijón de cabeça para baixo em 90 minutos, em 22 de junho saberemos se a faca ainda corta.








