Quarenta e quatro mil e duzentas pessoas no Maracanã de um lado; pouco mais de dois mil no estádio Cícero de Souza Marques do outro. Os jogos de ida da 5ª fase da Copa do Brasil 2026 produziram um retrato fiel da hierarquia de apelo popular no futebol brasileiro — e o contraste é digno de nota histórica. O Flamengo venceu o Vitória por 2 a 1 na quarta-feira com renda bruta de R$ 3 milhões, enquanto o empate em 1 a 1 entre Bragantino e Mirassol rendeu modestos R$ 52 mil aos cofres da competição.
O Maracanã como termômetro da Copa do Brasil
O número de 44.200 presentes no clássico Flamengo x Vitória não surpreende quem acompanha a trajetória do Rubro-Negro carioca na Copa do Brasil ao longo das últimas décadas. O clube ostenta o maior número de títulos da competição, com quatro conquistas, e a torcida responde ao chamado mesmo em fases intermediárias. O público pagante de 41.100 pessoas e a renda bruta de R$ 3 milhões colocam essa partida entre as mais lucrativas de toda a edição 2026 do torneio, consolidando o Maracanã como o palco de maior retorno financeiro desta rodada.

A comparação com outros grandes da série revela que o fenômeno não é exclusivo do Flamengo. O Vasco, jogando em Belém diante do Paysandu, reuniu 25.933 torcedores e gerou renda de R$ 2.054.749 — segundo maior valor da fase, segundo levantamento do SportNavo a partir dos dados divulgados pela CBF. O São Paulo, no Morumbis, registrou 33.603 presentes e renda superior a R$ 1,1 milhão contra o Juventude. O Botafogo, campeão brasileiro e da Libertadores em 2024, trouxe 26.001 torcedores ao Nilton Santos para a vitória por 1 a 0 sobre a Chapecoense, com renda de R$ 812.690.
O Corinthians, mesmo em crise financeira que se arrasta desde 2023, atraiu 14.137 torcedores para o duelo com a Barra — resultado modesto para um clube de massa, mas compreensível dado que o jogo foi disputado fora de São Paulo. A renda de R$ 2.620.420, no entanto, indica ingressos de valor elevado, reflexo provável de uma praça menor com menor oferta de assentos populares.
O vazio de Bragança e o desafio do interior
O encontro entre Bragantino e Mirassol no Cícero de Souza Marques foi o espelho oposto do Maracanã. Pouco mais de 2.000 espectadores e renda de R$ 52 mil compõem um cenário que nenhum dirigente gosta de ver publicado. O duelo paulista, entre dois clubes do interior do estado, ilustra uma realidade estrutural: competições nacionais de mata-mata raramente mobilizam torcidas de clubes sem massa expressiva quando os adversários também carecem de apelo regional amplo.
O Bragantino, clube refundado com capital do grupo Red Bull em 2019, ainda constrói sua base de torcedores. Nos seus primeiros anos na Série A, entre 2021 e 2023, a média de público no Nabi Abi Chedid raramente ultrapassou os 8.000 torcedores. O Mirassol, revelação recente que subiu à elite nacional, enfrenta desafio similar: uma cidade de 60 mil habitantes não produz, por si só, a demanda de bilheteria necessária para rivalizar com os coliseus do futebol nacional.
A análise do SportNavo sobre as últimas quatro edições da Copa do Brasil mostra padrão semelhante: jogos entre clubes do interior ou de menor expressão nacional, mesmo em fases avançadas, historicamente ficam abaixo dos 5.000 pagantes quando disputados nas cidades-sede dos clubes menores.
Grêmio e o equilíbrio gaúcho
Entre os dois extremos da rodada, o Grêmio apresentou um dado relevante: 18.350 torcedores na Arena para a goleada por 2 a 0 sobre o Confiança, com renda de R$ 969.353. O número é expressivo para um jogo de meio de semana em fase que ainda não produz o fervor das quartas e das semis — e reforça a consistência da torcida tricolor gaúcha, que historicamente figura entre as mais assíduas do Brasil independentemente do adversário em campo. O clube foi campeão da Copa do Brasil em 2001 e 2016, e a memória afetiva com o torneio ainda mobiliza a torcida.
O Goiás, em confronto com o Cruzeiro que terminou em 2 a 2, registrou 18.725 presentes e renda de R$ 1.018.793 — números que o Bragantino demoraria anos para alcançar em sua cidade. O dado confirma que a presença de um clube de expressão nacional como adversário, caso do Cruzeiro, infla o público mesmo em praças fora do eixo Rio-São Paulo.
O que os números da 5ª fase revelam sobre o torneio
Somados os públicos da fase, a rodada de ida reuniu cerca de 183 mil torcedores nas arquibancadas brasileiras, com renda total estimada acima de R$ 11 milhões — cifra considerável para jogos de ida, onde o resultado ainda está em aberto e a tensão máxima ainda não chegou. A Copa do Brasil, criada em 1989, sempre conviveu com essa dualidade: é ao mesmo tempo o torneio dos grandes negócios financeiros e o palco de confrontos entre realidades completamente distintas do futebol nacional.
Os jogos de volta desta 5ª fase estão previstos para a semana seguinte, com o Flamengo recebendo o Vitória novamente, desta vez no papel de anfitrião em Salvador, enquanto o Bragantino tentará reverter o empate diante do Mirassol — provavelmente, mais uma vez, com arquibancadas semivazias.








