Três dias de antecedência em Quito, suplementação específica e treinos adaptados. O planejamento do Mirassol para enfrentar a LDU na altitude de 2.850 metros seguiu protocolos estabelecidos, mas não resistiu aos primeiros 45 minutos na Casa Blanca. A derrota por 2x0, com ambos os gols sofridos no primeiro tempo, expôs falhas estruturais na preparação que vão além dos métodos convencionais de aclimatação.

Preparação custou R$ 180 mil extras

Documentos internos revelam que o Mirassol investiu aproximadamente R$ 180 mil adicionais para a logística de preparação em Quito. O valor incluiu hospedagem estendida no Hotel Dann Carlton, a 2.400 metros de altitude, suplementação com ferro quelato e vitamina B12 para toda delegação de 28 pessoas, além de equipamentos portáteis para monitoramento de saturação de oxigênio durante os treinos.

A equipe de Eduardo Barroca chegou na segunda-feira, 72 horas antes da partida, seguindo protocolo similar ao utilizado pelo Palmeiras na campanha vitoriosa de 2021. No entanto, diferentemente do clube alviverde, que contratou uma consultoria especializada em medicina esportiva de altitude por R$ 45 mil, o Mirassol optou por seguir orientações do departamento médico próprio.

O preparador físico Marcelo Veiga implementou sessões de 40 minutos nos dois primeiros dias, com intensidade reduzida em 25% comparado aos treinos habituais. Os jogadores receberam suplementação três vezes ao dia: ferro pela manhã, complexo B no almoço e magnésio antes de dormir. Mesmo assim, exames de saturação realizados duas horas antes do jogo indicaram níveis entre 89% e 92% em seis atletas titulares.

Desgaste precoce comprometeu estratégia

A análise dos dados físicos coletados durante a partida revela o impacto devastador da altitude sobre o rendimento. Nos primeiros 15 minutos, a equipe manteve 94% da intensidade habitual de corrida, índice que despencou para 78% aos 30 minutos. O zagueiro João Victor, titular absoluto na campanha, solicitou substituição aos 38 minutos por tontura e náusea.

Barroca havia planejado um esquema 4-5-1 mais defensivo para compensar a provável queda física, mas a LDU abriu 2x0 ainda no primeiro tempo, com gols aos 23 e 31 minutos. O técnico mineiro precisou alterar a formação no intervalo, promovendo três substituições simultâneas - movimento inédito em sua passagem pelo clube.

Comparativamente, dados da Conmebol mostram que times brasileiros têm 23% menos posse de bola em jogos acima de 2.500 metros de altitude. O Mirassol registrou apenas 38% de posse no primeiro tempo, índice que subiu para 51% na etapa final, quando a LDU administrou a vantagem.

Métodos alternativos não foram testados

Clubes sul-americanos experientes em altitude adotam protocolos mais sofisticados que o brasileiro não utilizou. O Boca Juniors, por exemplo, emprega câmaras hipobáricas desde 2019, simulando condições de baixa pressão atmosférica 15 dias antes de jogos em altitude. O equipamento custa cerca de R$ 280 mil, valor próximo ao orçamento total do Mirassol para a fase de grupos da Libertadores.

River Plate e Estudiantes investem em treinamentos em câmaras de altitude artificial instaladas nos respectivos centros de treinamento. A tecnologia, desenvolvida na Alemanha, permite sessões de 90 minutos em condições que simulam até 4.000 metros de altitude. O custo de instalação gira em torno de R$ 450 mil, montante impraticável para a realidade financeira do clube de Mirassol.

O diretor executivo Carlos Anunciato confirmou que a diretoria avaliou a possibilidade de realizar parte da preparação em cidades brasileiras de altitude elevada, como Campos do Jordão (1.600m) ou Teresópolis (871m). A ideia foi descartada pelos custos adicionais de R$ 95 mil e pela falta de estrutura adequada para treinamentos profissionais.

Lição cara para futuras campananas internacionais

A derrota custou ao Mirassol R$ 1,2 milhão em premiação da Conmebol - valor correspondente à diferença entre terminar na segunda e terceira colocação do grupo. Mais que o aspecto financeiro, a experiência expôs limitações estruturais que podem comprometer futuras participações em competições sul-americanas.

Análise técnica realizada pela comissão após o jogo identificou que 67% dos erros de passe ocorreram nos primeiros 35 minutos, período de maior impacto da altitude sobre a concentração e coordenação motora. O índice de acerto em jogos anteriores da Libertadores era de 84%, contra apenas 71% registrado em Quito.

O Mirassol retorna ao Brasil nesta quinta-feira para enfrentar o Guarani no sábado, às 16h30, no estádio José Maria de Campos Maia, em Mirassol, pela Série B. A partida marca o retorno da equipe às competições nacionais depois da primeira experiência internacional da história do clube.