Em 33 anos de carreira no futebol, Roger Machado nunca havia experimentado rejeição tão intensa quanto a vivida no São Paulo. Após apenas 40 dias no comando do Tricolor, o técnico acumula seis vitórias, um empate e quatro derrotas, mas foi vaiado mesmo na vitória por 1 a 0 sobre o Juventude, pela Copa do Brasil, no último dia 21.

"Nunca vi uma rejeição tão grande a um técnico. Gostaria de entender do torcedor o motivo de uma manifestação tão forte. Não começou agora com os resultados, já vinha de antes e aumentou"

A velocidade da contestação coloca Roger entre os técnicos mais rapidamente rejeitados da história recente são-paulina. Para encontrar paralelos similares, é preciso recuar aos casos de Hernán Crespo em 2021 e Dorival Júnior em 2017, ambos alvos de protestos precoces que selaram seus destinos no clube.

Padrão histórico de impaciência tricolor

A análise dos últimos 15 anos revela um padrão: técnicos chegam ao São Paulo sob desconfiança e têm prazo curtíssimo para conquistar a torcida. Crespo, por exemplo, foi contestado já na terceira rodada do Paulista de 2021, apesar de ter vencido o Botafogo-SP por 1 a 0. O argentino resistiu 11 meses, mas nunca conseguiu reverter a antipatia inicial.

Dorival Júnior viveu situação ainda mais dramática em 2017. Após apenas sete jogos, com três vitórias e quatro derrotas, enfrentou protesto da Torcida Independente no CT da Barra Funda. Diferentemente de Roger, Dorival não resistiu à pressão e pediu demissão com 23 dias de trabalho.

Segundo levantamento do SportNavo, desde 2010, apenas Rogério Ceni e Luiz Felipe Scolari conseguiram iniciar mandatos no São Paulo sem contestação imediata da arquibancada. Ceni por ser ídolo histórico, Scolari pelo currículo mundial.

Números contraditórios alimentam paradoxo

O caso Roger apresenta peculiaridade estatística que o diferencia dos antecessores rejeitados. Seu aproveitamento de 60% em onze jogos supera os números iniciais de Crespo (50% nos primeiros onze) e Dorival (42,8% em sete partidas). Mesmo assim, a contestação mostra-se mais intensa.

A vitória sobre o Juventude ilustrou perfeitamente o paradoxo. O São Paulo dominou a partida, criou pelo menos oito chances claras, mas desperdiçou pênalti com Calleri e acertou duas bolas na trave. Luciano, autor do gol da vitória, saiu em defesa do técnico após o jogo.

"Se a torcida vaia, eles estão na razão, mas nós jogadores somos os maiores culpados"

A declaração do camisa 10 ecoa episódios similares vividos por outros comandantes. Em 2017, Jucilei e Rodrigo Caio defenderam publicamente Dorival, mas não conseguiram conter sua saída. Em 2021, Dani Alves tentou blindar Crespo sem sucesso duradouro.

Fatores externos aceleram desgaste

Roger Machado identifica na pressão externa o principal obstáculo para estabilização de seu trabalho. O técnico relatou que precisou orientar os jogadores a manterem calma na partida da Sul-Americana, evidenciando como a contestação ao comando técnico contamina o rendimento em campo.

A situação ganha contornos mais complexos quando comparada aos casos históricos. Crespo enfrentou início de Campeonato Paulista, período tradicionalmente mais tolerante. Dorival assumiu em meio ao Brasileiro, mas com time em 15º lugar. Roger herdou elenco em momento de transição, com cobranças por resultados imediatos em três competições simultâneas.

Conforme apuração do SportNavo, a diretoria são-paulina mantém confiança no trabalho do gaúcho, diferentemente do que ocorreu com Dorival em 2017. Presidente Julio Casares e o executivo Rui Costa apostam na reversão do cenário através de resultados consistentes.

Padrão histórico de impaciência tricolor Roger Machado enfrenta rejeição recorde
Padrão histórico de impaciência tricolor Roger Machado enfrenta rejeição recorde

Próximo teste definirá permanência

A sequência de jogos nas próximas semanas será decisiva para o futuro de Roger no comando tricolor. O confronto contra o Mirassol, no sábado, pelo Brasileirão, representa teste crucial para medir a evolução da relação com a torcida e a resposta do elenco às críticas.

Historicamente, técnicos que superaram rejeições iniciais no São Paulo conseguiram pelo menos seis meses de trabalho. Muricy Ramalho, contestado em 2005, conquistou a torcida com títulos consecutivos. Roger Machado busca quebrar o ciclo de rotatividade que marca o clube desde 2017, quando nenhum treinador completou temporada inteira.

O São Paulo volta a campo no sábado, 25 de janeiro, às 21h, contra o Mirassol, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. A partida de volta contra o Juventude, em Caxias do Sul, está agendada para 13 de maio, onde o Tricolor jogará pelo empate para avançar na Copa do Brasil.