A confusão generalizada que marcou o fim do confronto entre Vila Nova e Operário, no último sábado (18), no Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga, em Goiânia, ganhou contornos de caso exemplar no Superior Tribunal de Justiça Desportiva. A procuradora Rita de Cássia Ancelmo Bueno apresentou denúncia de 18 páginas requerendo punições que podem incluir suspensões de até 180 dias e perda de mando de campo – penalidades que ecoam um padrão crescente de rigor do STJD contra episódios de violência no futebol brasileiro.
O documento detalha uma sequência de eventos que transformou o pós-jogo em battlefield: o zagueiro Jhan Torres arremessou uma garrafa de água que acertou o ex-presidente do Vila Nova, Geso de Oliveira. A torcida colorada respondeu com o lançamento da mesma garrafa, que atingiu em cheio o rosto do presidente do Operário, Álvaro Góes, deixando-o caído no gramado. Uma lixeira também foi projetada para dentro do campo, enquanto jogadores do Fantasma revidaram arremessando copos d'água nas arquibancadas.
O peso da acusação de racismo
Além da violência física, o caso ganhou dimensão ainda mais grave com a denúncia de Hildeberto Pereira, atacante português/cabo-verdiano do Operário. O jogador relatou ter sido vítima de injúria racial por parte de um torcedor do Vila Nova, posteriormente identificado pelo sistema de reconhecimento facial do estádio.
"Ele me chamou de macaco. Ele me chamou de macaco e fez o gesto", disse o atacante do Fantasma para um membro do staff do Vila.
A gravidade desta acusação encontra precedente na jurisprudência recente do STJD. Em 2023, o Tribunal aplicou multa de R$ 30 mil ao Cruzeiro após torcedores proferirem ofensas racistas contra jogadores do Bahia durante partida da Série A. No mesmo ano, o Grêmio perdeu o mando de campo por dois jogos após cânticos discriminatórios de sua torcida contra atletas do Palmeiras.
Histórico de punições na Série B revela padrão
Levantamento do SportNavo sobre casos similares na Série B desde 2021 revela que o STJD tem endurecido sistematicamente as punições por confusões envolvendo jogadores, dirigentes e torcedores. Em 2022, o Náutico perdeu dois mandos de campo após briga generalizada no clássico contra o Sport, que resultou em três cartões vermelhos e invasão de campo. O clube pernambucano ainda foi multado em R$ 50 mil.
O Londrina enfrentou punição similar em 2023, quando perdeu o mando por uma partida após confusão que envolveu arremesso de objetos e agressão a gandulas durante jogo contra o Ituano. Já o CRB foi penalizado com multa de R$ 40 mil e advertência após torcedores arremessarem garrafas e copos no confronto contra a Ponte Preta, também em 2023.
Mais recentemente, em 2024, o Goiás recebeu multa de R$ 35 mil por falha na segurança durante partida contra o Santos, quando objetos foram lançados das arquibancadas. O caso demonstra que mesmo clubes tradicionais não escapam do rigor crescente do Tribunal.
Punições previstas podem afetar campanha
As denúncias apresentadas pela Procuradoria incluem suspensão de 15 a 180 dias para o gandula André Fabrete Matochoco, enquanto o Vila Nova pode enfrentar multa e perda de mando de campo pela "desordem de torcedores e lançamento de objetos", conforme os artigos 191 e 213 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva.
A análise de precedentes indica que o STJD tem optado por punições exemplares quando há combinação de violência física e elementos discriminatórios. O padrão estabelecido nos últimos cinco anos sugere que o Vila Nova pode perder entre um a três mandos de campo, além de multa que pode variar entre R$ 20 mil e R$ 60 mil, dependendo da gravidade reconhecida pelo Tribunal.
Para o Operário, que atualmente ocupa a 15ª posição na Série B com 47 pontos, as consequências podem ser menores, mas não desprezíveis. O clube paranaense pode enfrentar advertência e multa caso seja comprovado comportamento inadequado de seus atletas no episódio dos copos arremessados.

O julgamento está agendado para a próxima semana no STJD, enquanto Vila Nova e Operário voltam a campo na próxima rodada da Série B, respectivamente contra Mirassol e Guarani, ambos no sábado (25), ainda sob a sombra das possíveis sanções que podem impactar a reta final da competição.

