Confesso: eu errei sobre o Catar em 2022. Escrevi, aqui mesmo no SportNavo, que a seleção anfitriã tinha chegado à Copa como um projeto de marketing, não de futebol — e que sairia sem deixar rastros. Saiu mesmo, com três derrotas e zero pontos. Mas o que vi neste sábado (13), no Levi's Stadium, em Santa Clara, na Califórnia, foi outra coisa. O Catar empatou com a Suíça por 1 a 1, com gol de cabeça do zagueiro Boualem Khoukhi aos 49 minutos do segundo tempo, e conquistou o primeiro ponto da sua história em Copas do Mundo. Pequeno para quem olha o marcador. Enorme para quem entende o que ele representa.

O que o Catar de 2026 tem que o de 2022 não tinha

Em 2022, a seleção catariana sofreu 7 gols em três jogos — contra Equador (2 a 0), Senegal (3 a 1) e Países Baixos (2 a 0) — e encerrou o torneio com o pior aproveitamento da história de um anfitrião. Neste sábado, diante de uma Suíça tecnicamente superior, o comportamento foi radicalmente diferente. O Catar recuou conscientemente, organizou linhas defensivas com até sete jogadores dentro da área em momentos críticos e apostou nos contra-ataques como principal saída ofensiva — uma estratégia coerente com suas limitações, não uma rendição passiva.

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O goleiro Mahmoud Abunada foi o grande destaque da partida. Apesar de ter cometido a penalidade que resultou no gol de Breel Embolo, aos 16 minutos — ao se chocar com o volante Remo Freuler dentro da área —, Abunada fez ao menos três defesas importantes, incluindo uma com o pé em finalização de Edmilson Júnior, e foi decisivo nas bolas aéreas. A ironia cruel do futebol: o melhor jogador em campo pelo Catar também foi o autor involuntário do único erro que custou um gol.

Aos 49 minutos da etapa final, quando a vitória suíça parecia encaminhada, o zagueiro Khoukhi apareceu na área e converteu de cabeça para empatar. A Suíça havia finalizado 26 vezes ao longo da partida, mas apenas sete foram em direção ao gol. O Catar chutou apenas sete vezes no total, com quatro no alvo — e marcou. É a síntese de um time que aprendeu a ser eficiente dentro das próprias possibilidades… e aí vem o problema.

A Suíça que desperdiçou e o futebol que não perdoa

Do lado europeu, o jogo foi uma lição sobre o custo do desperdício. Os suíços dominaram a posse de bola durante os 90 minutos, sufocaram o Catar nos primeiros 20 minutos e criaram volume ofensivo considerável — especialmente no primeiro tempo, com 14 finalizações, 12 delas dentro da área. Ainda assim, balançaram a rede apenas uma vez, de pênalti. Depois do gol, a equipe de Murat Yakin cadenciou as ações, aparentemente para poupar energia diante do calor de Santa Clara, e perdeu intensidade no segundo tempo.

A chance perdida logo no primeiro minuto por Edmilson Júnior — atacante belga de origem brasileira naturalizado catariano — após erro do experiente zagueiro Manuel Akanji foi um alerta que a Suíça não soube ler. O atacante ficou cara a cara com o goleiro Gregor Kobel e desperdiçou. Naquele instante, a partida poderia ter tomado outro rumo completamente.

"Quem não faz, toma" — a máxima do futebol se fez presente com precisão cirúrgica no Levi's Stadium, como apontou a Agência Brasil em sua cobertura do jogo.

Com um ponto cada, Suíça e Catar se igualam a Canadá e Bósnia e Herzegovina no Grupo B, que havia empatado por 1 a 1 na sexta-feira (12) no Toronto Field. O grupo está completamente aberto antes da segunda rodada.

O que os números escondem sobre a evolução tática catariana

A comparação estatística entre 2022 e este sábado revela uma mudança de abordagem que vai além do resultado. Em 2022, o Catar tentava jogar, se expunha e era massacrado. Contra a Suíça, a equipe asiática assumiu explicitamente o papel de time de menor posse — e construiu sua estratégia em cima disso. O bloqueio defensivo foi montado com disciplina, e as saídas em velocidade exploraram os espaços deixados pelos suíços quando avançavam.

Edmilson Júnior, que aparece como símbolo da política de naturalização catariana, foi o jogador mais perigoso da seleção asiática quando teve espaço. Aos 42 minutos do primeiro tempo, ele finalizou de primeira após cruzamento rasteiro de Afifi pela direita, obrigando Kobel a uma defesa com o pé. A jogada resumiu o modelo catariano: poucos toques, velocidade e objetividade quando a chance aparece.

"A seleção do Catar mostrou uma organização defensiva que não existia em 2022 — e isso não acontece por acidente", observou a cobertura do Terra Esportes, que classificou o confronto como "o pior jogo da Copa até o momento" em termos de qualidade técnica geral.

A avaliação sobre a qualidade do jogo é justa. Mas reduzir o empate a um espetáculo ruim seria ignorar o contexto histórico que ele carrega. Para uma seleção que estreou em Copas do Mundo como anfitriã e saiu sem nenhum ponto, conquistar a primeira igualdade em um Mundial — fora de casa, contra um adversário europeu — representa um dado concreto de evolução institucional.

O que vem a seguir para o Catar no Grupo B

Com um ponto somado na estreia, o Catar tem agora um cenário mais favorável do que qualquer projeção pré-torneio sugeria. Na segunda rodada, marcada para quinta-feira (18), a seleção asiática enfrenta o Canadá — outro anfitrião da Copa — às 19h (horário de Brasília), no BC Place Stadium, em Vancouver. Uma vitória colocaria o Catar em posição de brigar pela classificação até a última rodada.

A Suíça, por sua vez, joga no mesmo dia contra a Bósnia e Herzegovina, às 16h, no SoFi Stadium, em Los Angeles. Os europeus precisam de uma reação — tanto no volume de finalizações convertidas quanto na intensidade no segundo tempo — para não ver o grupo escapar das mãos antes da terceira rodada.

É o mesmo cenário que a Coreia do Sul viveu em 2002 — um time tido como figurante que aprendeu a se defender antes de aprender a atacar, e que foi crescendo jogo a jogo até surpreender o mundo. Só que agora a aposta é diferente: o Catar não tem o fator casa, mas tem algo que a Coreia de 2002 também tinha — a sensação de que ninguém acredita neles, e que isso pode ser exatamente o combustível que falta.