Março de 2025. Em uma entrevista ao canal AZZ, Rodrigo De Paul declarou que a seleção argentina comandada por Lionel Scaloni é a melhor da história. A frase percorreu redações e redes sociais com a velocidade de um contragolpe. E chegou, com toda a força, aos ouvidos de um homem que foi artilheiro de uma Copa do Mundo antes de De Paul completar seu primeiro ano de vida.
Mario Alberto Kempes, o Bell Ville de 1954, 6 gols no Mundial de 1978, dois deles na final contra a Holanda — esse homem não precisou de muito tempo para responder.
"Esta gente ganhou uma só Copa do Mundo, não duas. A de 1978 e a de 1986 também levantaram uma. Há que se consagrar em dois Mundiais para ser a melhor", disse Kempes em entrevista ao AZZ.
A lógica de Kempes é simples e historicamente ancorada. A Argentina de Lionel Messi venceu o Qatar 2022 e conquistou duas Copas América consecutivas (2021 e 2024), mas o critério do "Matador" para o título de maior seleção da história passa exclusivamente pelo Campeonato do Mundo — e um único título não fecha essa conta.
O que De Paul disse e por que Kempes não aceita
Quando De Paul fez a afirmação, o contexto era de euforia pós-Qatar. A Argentina havia encerrado um jejum de 36 anos sem título mundial, Messi finalmente segurava a taça que parecia estar sempre um passo à frente dele, e o grupo de Scaloni tinha construído uma identidade coletiva rara — algo que os argentinos não sentiam desde os anos de Carlos Bilardo no banco. A declaração do volante do Atlético de Madrid soou como expressão genuína desse sentimento de geração, não como arrogância calculada.
Mas Kempes, que viveu o outro lado da história, enxerga uma distorção de perspectiva. Para ele, De Paul simplesmente não tinha referência direta do que foi 1978 ou 1986 — ele nasceu em 1994. "De Paul não havia nascido quando saímos campeões nós. São seleções campeãs. Não há uma seleção melhor que outra. Nós fomos os melhores em 78, a de Diego em 86, hoje os de 2022", declarou o ex-atacante ao portal Medios Rioja, com um cuidado que mistura respeito e recado.
O argumento não é de vaidade pessoal. Kempes cita o Brasil de 1970 — talvez o único time que historiadores do futebol colocam acima de qualquer discussão — e a Holanda da mesma década, que nunca ganhou uma Copa mas revolucionou o jogo com o futebol total de Rinus Michels e Johan Cruyff. São referências que qualquer estudioso sério do esporte precisa incluir antes de usar o superlativo absoluto.
Uma geração que ainda precisa provar no palco certo
Há um paralelo europeu que ilumina bem esse debate. Quando o Barcelona de Pep Guardiola ganhou a Champions de 2009 e 2011, jogando um futebol que parecia de outro planeta, muitos jornalistas espanhóis — e eu estava em Barcelona naquele período — já declaravam aquele time o melhor da história do clube e um dos maiores de todos os tempos. A discussão era acirrada: seria superior ao Ajax de 1971-73? Ao Real Madrid de Di Stéfano? A resposta honesta era: depende do critério que você adota.
Com seleções, o critério de Kempes é ainda mais rígido: dois Mundiais. Apenas quatro países conquistaram isso — Brasil (5 títulos), Alemanha (4), Itália (4) e França (2). A Argentina tem três, mas dois deles pertencem às gerações de 1978 e 1986. A Scaloneta, por enquanto, tem um.
"Saíram campeões, mas que tenham os pés sobre a terra. Na nossa época não tivemos jogo de despedida. São coisas que acontecem na história. Talvez daqui a 30 anos venham outros e digam que são melhores", completou Kempes.
A frase sobre o "jogo de despedida" é uma referência direta às celebrações e homenagens que a seleção atual recebeu no país após o Qatar — algo que a geração de 1978 jamais viveu com a mesma intensidade institucional. Não é amargura. É contextualização histórica.
Favoritismo real, preocupação real
Apesar da discordância sobre o rótulo histórico, Kempes não tem dúvida sobre o favoritismo da Argentina na Copa do Mundo de 2026. "Para mim segue sendo a favorita, realmente Scaloni está fazendo um trabalho muito bom", afirmou em entrevista à ESPN, reconhecendo também que houve renovações no elenco que avaliou positivamente.
A ressalva, porém, é concreta e preocupante. No início da semana que antecede o estreia contra a Argélia em Kansas City, sete jogadores eram dúvida: Nicolás Tagliafico (lesão na panturrilha), Leandro Paredes (desgarro no isquiotibial), Julián Álvarez, Nahuel Molina, Gonzalo Montiel, Nicolás González e o goleiro Emiliano Martínez. Tagliafico seguia fora; Paredes recuperado, mas sem ritmo de jogo; González recebeu alta e pode ser relacionado.
"O que talvez me preocupa um pouquinho é a quantidade de lesionados. A lo mejor não chegam com essa bagagem positiva de terem treinado tranquilamente, que é o que numa Copa do Mundo não se pode dar vantagem", alertou Kempes à ESPN.
Esse tipo de inquietação tem base histórica sólida. Na Copa de 1982, na Espanha, a Argentina chegou como campeã defensora, mas Diego Maradona ainda não era o jogador que seria em 1986, e o elenco carregava desgastes físicos e táticos que resultaram em eliminação na segunda fase. Em 2006, a Alemanha de Klinsmann chegou ao torneio com um grupo jovem e relativamente intacto — e foi até as semifinais. Condição física e ritmo de jogo têm peso específico em torneios curtos como uma Copa.
O que Kempes enxerga como ponto positivo é o ambiente interno. Segundo ele, o grupo de Scaloni mantém uma harmonia que elimina o ego como fator perturbador — algo que, em seleções sul-americanas, historicamente foi veneno. "Não há egoísmo, não há ego que perturbe um pouco a concentração", disse o ex-atacante, atribuindo a essa característica parte do sucesso recente.
A polêmica com De Paul, no fundo, é menos sobre vaidade e mais sobre como cada geração lida com o peso da própria história. Kempes viveu o silêncio de uma Copa que aconteceu sob ditadura, cujos méritos esportivos foram durante anos ensombrecidos por contexto político. Defender a grandeza daquele título — e do de 1986 — é também um ato de memória coletiva.
A Argentina estreia na Copa do Mundo de 2026 na terça-feira contra a Argélia, em Kansas City. Se vencer e avançar até a taça, De Paul poderá voltar ao assunto. Kempes, por sua vez, já deixou claro o preço de entrada para o debate — dois títulos mundiais. A Argentina tem um. Falta o segundo.








