Confesso: eu errei sobre Tuchel em 2025. Quando ele foi anunciado como técnico da Inglaterra, minha leitura foi de que seria mais um nome europeu contratado para dar verniz ao projeto, sem alterar a essência. Errei feio. O que ele construiu nas eliminatórias — oito jogos, oito vitórias, zero gols sofridos — não é resultado do acaso. É método. E hoje, na abertura do Grupo L da Copa do Mundo, contra a Croácia no AT&T Stadium, em Arlington, às 17h (de Brasília), essa pergunta volta com força: o sistema de Tuchel aguenta o teste real?

O que os números das eliminatórias revelam sobre a Inglaterra de Tuchel

Vamos ao dado mais impactante primeiro: PPDA — passes permitidos por ação defensiva. Essa métrica mede a intensidade da pressão de uma equipe sobre o adversário. Nas eliminatórias europeias, a Inglaterra de Tuchel apresentou um dos menores índices do grupo, pressionando alto e sufocando a saída de bola de Albânia, Sérvia e Letônia antes que elas chegassem ao terço final do campo.

Mas tem um porém — e aqui mora o debate. Os adversários nas eliminatórias eram, com todo respeito, seleções de nível médio-baixo. O PPDA baixo contra a Albânia não garante o mesmo contra Mateo Kovacic e Luka Modric, que têm velocidade de decisão e qualidade de passe para escapar de pressões mais agressivas.

Outro número que chama atenção: os progressive passes da Inglaterra — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Com Declan Rice como pivô defensivo e Elliot Anderson ao lado, a equipe criou uma rede de passe mais vertical e direta do que o estilo tradicional inglês. Menos posse circular, mais transição organizada. Isso se reflete no xG gerado: a Inglaterra converteu bem acima da média esperada nas eliminatórias, com Harry Kane acumulando xG altíssimo — o atacante terminou a temporada 2025/26 pelo Bayern de Munique com 61 gols em 51 partidas, sendo o artilheiro máximo do futebol europeu.

O que os números das eliminatórias revelam sobre a Inglaterra de Tuchel Tuchel z
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Palmer fora, Anderson dentro — a lógica (polêmica) de Tuchel

A ausência de Cole Palmer (Chelsea), Phil Foden (Manchester City) e Trent Alexander-Arnold (Real Madrid) gerou uma tempestade na imprensa britânica. Do ponto de vista de xA — expected assists, métrica que mede a qualidade das chances criadas por um jogador — esses três são entre os mais produtivos da Premier League. Foden e Palmer, em especial, têm xA por 90 minutos que colocaria qualquer um deles entre os criadores de elite da Copa.

Tuchel, porém, fez uma escolha tática clara: priorizou jogadores que aceitam pressionar sem bola — as chamadas defensive actions — em vez de craques que exigem liberdade posicional. Elliot Anderson, do Newcastle, é um exemplo disso. Tecnicamente inferior a Palmer, mas com capacidade de cobrir linhas de passe e recuperar a bola em zonas de pressão. O técnico alemão — que já demonstrou essa filosofia no Chelsea e no Bayern — montou um time que defende como bloco antes de atacar como indivíduos.

"Kane é um mestre do jogo. Não é só gol, é o jeito que ele movimenta a defesa inteira", disse o zagueiro croata Duje Caleta-Car antes da partida.

A provável escalação inglesa confirma essa leitura: Pickford; Reece James, Stones, Guehi e Nico O'Reilly; Rice e Anderson; Madueke (ou Saka, com dúvida física), Bellingham e Gordon; Kane. Um 4-2-3-1 compacto, com duas linhas de quatro bem definidas e Kane como referência isolada.

Onde a Croácia pode fazer a Inglaterra sofrer

A Croácia de Zlatko Dalic chega ao jogo com um elenco envelhecido — Modric tem 40 anos, Ivan Perisic tem 37, Andrej Kramaric tem 34 — mas com algo que estatística nenhuma captura completamente: experiência de torneio. Vice-campeã em 2018 (eliminando a própria Inglaterra na semifinal, de virada, na prorrogação) e terceira colocada em 2022 após bater o Brasil nas quartas, essa geração sabe exatamente como administrar jogos de mata-mata.

O ponto de exploração croata está no pass network inglês. Com Anderson e Rice como dupla de meio-campo, a Inglaterra tem qualidade defensiva mas pode apresentar lentidão na transição quando perde a bola em campo alto. Modric — mesmo aos 40 anos — é um dos jogadores com maior taxa de passes progressivos completados por 90 minutos na história recente do futebol. Se ele e Kovacic conseguirem circular a bola antes que a pressão inglesa se organize, a Croácia tem condição de criar espaços nas costas de O'Reilly e Reece James.

"Preferiria que nossa estreia fosse contra um adversário mais tranquilo", admitiu o próprio Dalic antes do confronto — um raro momento de transparência do treinador croata sobre o peso do jogo.

Há também a questão física. Kovacic, Gvardiol e Modric chegam ao torneio sem ritmo ideal de jogo, segundo informações do entorno da seleção croata. Uma Inglaterra que pressione com intensidade nos primeiros 30 minutos pode desgastar um meio-campo que depende de cadência para funcionar. O xG esperado para a Croácia neste jogo é baixo justamente por isso: a equipe raramente cria volume de finalizações, mas é letal nas poucas oportunidades que constrói.

Nos últimos quatro confrontos diretos entre as seleções, três terminaram com menos de 2,5 gols. A Inglaterra venceu dois dos três encontros mais recentes, com um empate. O histórico aponta para um jogo travado — mas a Croácia já mostrou que sabe virar jogos que parecem controlados.

Se a Inglaterra confirmar o favoritismo, Kane — com média de 5 finalizações e 3,5 chutes no alvo por jogo pelo Bayern nesta temporada — é o candidato óbvio a decidir. Caso a Croácia consiga neutralizar o xG inglês nas primeiras duas fases de pressão, o jogo vai para o campo que Modric domina há 20 anos: o do desgaste psicológico e da paciência tática. O segundo jogo da Inglaterra no Grupo L será contra Gana, e o da Croácia contra o Panamá — o que torna esses três pontos desta quarta ainda mais pesados para os dois lados.

Pickford já está no aquecimento. Kane ajusta as chuteiras. Modric olha para o campo como quem sabe que pode ser a última vez.