É um relógio suíço com pavio curto.

Assim funciona o Brasil de Vinicius Junior nesta Copa do Mundo: mecanismo de precisão quando o atacante do Real Madrid está em dia, dispositivo instável quando ele falha ou, pior, quando sequer pode entrar em campo. O problema no quadril que tirou o camisa 7 do treino desta semana — o mesmo incômodo que já o havia afastado de atividades com bola antes do amistoso contra a Croácia — transformou uma dúvida atlética numa crise tática de proporções bem maiores do que o noticiário imediato sugere.

O que o treino revelou antes do Haiti

Enquanto o grupo principal treinava normalmente neste sábado, Vinicius foi direcionado à academia. A imagem — o melhor jogador do elenco fazendo trabalho de academia separado dos companheiros — resume com precisão cirúrgica a fragilidade do projeto ofensivo brasileiro. Em 49 jogos pela Seleção até aqui, o atacante acumula apenas 9 gols, número que, para contextualizar, é idêntico ao do volante Casemiro no mesmo período. Isso em um atleta que o Real Madrid colocou numa campanha formal pelo Bola de Ouro de 2024, competição vencida pelo espanhol Rodri, do Manchester City, numa cerimônia que ficou marcada pela saída antecipada da delegação merengue.

O assistente técnico Francesco Mauri descreveu com precisão o que torna Vini único:

"Ele é um fenômeno na forma como usa o tornozelo. Não precisa de muito espaço para gerar potência no chute. Depois de controlar, depois de conduzir, ele usa o tornozelo e consegue colocar a bola onde quer e marcar. São tantos gols assim."
O problema é que essa fenomenologia toda foi construída sobretudo no Real Madrid — Champions League de 2022 contra o Liverpool em Paris, final de 2024 contra o Borussia Dortmund em Wembley. Pela Seleção, o relógio suíço ainda trava com frequência preocupante.

A estreia contra Marrocos e o vazio que Vini não preencheu

No MetLife Stadium, em Nova Jersey, o Brasil foi dominado durante os primeiros 30 minutos pelos marroquinos. O gol de Ismael Saibari, assistido por Brahim Díaz em jogada de toque fino, abriu o placar e deixou o estádio em silêncio. Vinicius, que deveria ser a resposta para tudo, foi a pergunta que ficou sem resposta. O próprio atacante reconheceu a dificuldade após o apito final:

"Acredito que começamos muito mal. Sofremos aquele primeiro gol. Depois disso fica muito difícil de engrenar. Com certeza temos que segurar..."

A derrota ou o tropeço na estreia não é, historicamente, sentença de morte numa Copa do Mundo. A Argentina de 2022, campeã em Qatar, perdeu na primeira rodada para a Arábia Saudita por 2 a 1 e se reergueu para conquistar o título. O Brasil de 1994, campeão nos Estados Unidos, começou com empate por 1 a 1 contra a Rússia antes de engrenar. O próprio Brasil de 1950 perdeu pontos na fase inicial antes da tragédia do Maracanã. Tropeços inaugurais existem. O que preocupa não é o resultado — é a arquitetura do time quando o seu jogador mais perigoso está abaixo ou ausente.

Kaká, que conhece Carlo Ancelotti melhor do que qualquer brasileiro vivo — foi sob o comando do italiano que se tornou o melhor jogador do mundo em 2007, pelo Milan —, tentou equilibrar o diagnóstico em entrevista à ESPN em Nova York:

"Não foi um bom jogo, mas acho que tem alguns motivos: nervosismo da estreia, Marrocos ser uma excelente seleção. Acredito que a gente tenha um excelente técnico, que vai achar soluções para esses desafios. Ancelotti tem muita bagagem em momentos de pressão e de dificuldade, quando precisa achar uma solução."
O ex-meia de 44 anos, que não colocou o Brasil entre os favoritos ao título — citou Espanha e França nessa condição —, usou a Argentina de 2022 como argumento de fé.

Rodrygo ou Raphinha — a decisão que Ancelotti precisa tomar

Se Vinicius não tiver condições de encarar o Haiti no dia 19 de junho, em Filadélfia, Ancelotti terá duas opções naturais à esquerda do ataque. Rodrygo, companheiro de Vini no Real Madrid e jogador de características completamente distintas — mais associativo, menos vertical, mais confortável entre linhas do que na corrida de velocidade —, representa uma solução de qualidade técnica comprovada, mas que altera o DNA ofensivo do esquema. Raphinha, capitão do Barcelona que admitiu publicamente render menos pela Seleção do que pelo clube, tem a vantagem da liderança e da experiência acumulada em Copas, mas carrega o mesmo problema estrutural de Vinicius: produz mais quando tem espaço para encarar do que quando a equipe não domina o jogo.

Decidiu.

Ou melhor: ainda não decidiu. E essa indecisão é o pavio do relógio. A história das Copas está cheia de seleções que dependeram demais de um único talismã e quebraram quando ele falhou. A França de 2002 tinha Zidane, Trezeguet e Henry — e caiu na fase de grupos sem marcar um gol sequer, com Zidane lesionado. O Brasil de 1998, favorito absoluto com Ronaldo Fenômeno, viu seu principal jogador sofrer convulsões na véspera da final e perder o título para a mesma França por 3 a 0. A dependência de um único nome não é novidade no futebol brasileiro. A questão é se Ancelotti, com toda a bagagem acumulada em Milão, Madri e Nápoles, tem o repertório para liberar o Brasil dessa armadilha antes que ela se feche.

O que o treino revelou antes do Haiti Como o Brasil joga sem Vini Jr. se o qua
O que o treino revelou antes do Haiti Como o Brasil joga sem Vini Jr. se o qua

É um relógio suíço com pavio aceso. E o Brasil joga contra o Haiti em Filadélfia no dia 19 de junho, às 21h30, sem saber se o seu ponteiro mais preciso estará em campo para marcar o tempo.