"O que passou, passou. Temos que nos concentrar somente nas partidas, só futebol." A frase é do técnico Vladimir Petkovic, pronunciada em 2018 depois que Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri comemoraram gols contra a Sérvia fazendo o símbolo da águia de duas cabeças da bandeira albanesa — gesto que custou a cada um deles 10 mil francos suíços em multa da Fifa. O problema é que, para Xhaka, futebol e história nunca estiveram em compartimentos separados. E a Copa do Mundo de 2026, que começa neste sábado com a estreia suíça contra o Catar no Grupo B, vai testar mais uma vez essa equação impossível.
O capitão que chegou à quarta Copa com mais jogos do que qualquer suíço
Aos 33 anos, nascido em Basel em 27 de setembro de 1992, Xhaka se prepara para disputar seu quarto Mundial. Em 2014, no Brasil, fez os quatro jogos da Suíça e marcou contra a França na fase de grupos. Em 2018, na Rússia, repetiu a dose — quatro partidas, um gol, e a polêmica com a Sérvia que tomou conta das manchetes. Em 2022, no Catar, mais quatro jogos, sem marcar, eliminado nas oitavas pelo Portugal de Cristóbal Ronaldo. Agora, em 2026, é o recordista de partidas pela seleção suíça e o capitão de um grupo em que 18 dos 26 convocados já têm experiência em Copa do Mundo.
A trajetória de clube reforça o peso do personagem. Xhaka passou pelo Basel, pelo Borussia Mönchengladbach, pelo Arsenal — onde viveu altos e baixos dramáticos, incluindo o episódio de 2019 em que tirou a camisa e saiu de campo em resposta à vaias da própria torcida —, pelo Bayer Leverkusen, onde conquistou a Bundesliga e a Copa da Alemanha em 2023-24, e hoje defende o Sunderland, fazendo boa temporada na Premier League 2025-2026. No currículo individual: três prêmios de melhor jogador suíço do ano, em 2017, 2022 e 2023.

A convocação para 2026 pelo técnico Murat Yakin foi natural, quase automática. Ao lado de Ricardo Rodríguez, do Betis — o segundo jogador com mais partidas pela seleção —, Xhaka forma o eixo de experiência de um grupo que tem como base a mesma equipe que eliminou a Itália com autoridade e levou a Inglaterra aos pênaltis nas quartas da Eurocopa de 2024.
A função tática que Yakin construiu ao redor de um volante
Dentro do esquema 4-2-3-1 de Yakin — que se transforma em um 4-4-2 compacto sem a posse —, Xhaka e Remo Freuler, do Bologna, formam a dupla de volantes que ancora tudo. A saída de bola é o ponto mais trabalhado pelo treinador: o goleiro participa ativamente da construção, os dois zagueiros abrem nas laterais e Xhaka e Freuler se aproximam para criar linhas de passe, puxar a marcação adversária e liberar espaço para os atacantes receberem em condições favoráveis.
Quando ataca, a Suíça não tem um padrão rígido de chegada à área — e isso é proposital. O time alterna entre construção paciente quando há espaço e transições rápidas após recuperação de bola no campo adversário. Dan Ndoye, pelo lado direito, e Ruben Vargas, pela esquerda, exploram os espaços que a movimentação de Xhaka ajuda a criar. Fabian Rieder ocupa o espaço entre as linhas, atrás de Breel Embolo, o centroavante do Stade Rennais que é a referência ofensiva do time.
Quando faz a bola girar com velocidade no terço médio, Xhaka dita o ritmo da equipe inteira. Quando pressiona alto e recupera a posse, ele é o primeiro a acionar a transição. A análise do desempenho suíço na Eurocopa de 2024 mostrou que a maioria das jogadas ofensivas passou pelos seus pés — dado que se repetiu no amistoso contra a Alemanha em março de 2026, antes da convocação definitiva.
A águia de duas cabeças e o peso que não some com uma multa
A história da família Xhaka começa antes do futebol. O pai, Ragip Xhaka, foi preso em Belgrado em 1986 por participar de manifestações pró-autonomia do Kosovo e passou três anos e meio detido. Quando foi libertado, a família deixou a antiga Iugoslávia. Em 1990, chegaram à Suíça. Granit nasceu dois anos depois, em Basel, dentro de outro país, mas dentro da mesma memória.
Essa memória apareceu em 2018 quando Xhaka e Shaqiri comemoraram seus gols contra a Sérvia fazendo o símbolo da águia albanesa. A Fifa multou os dois e abriu processo disciplinar. O técnico de então pediu página virada. Mas a história não virou página — ela se repetiu em formato diferente em 2026, nas eliminatórias, quando a Suíça voltou a enfrentar a Sérvia. Depois de uma vitória por 3 a 2, Xhaka celebrou vestindo a camisa de Ardon Jashari, jovem meia suíço cujo sobrenome é o mesmo de Adem Jashari, figura central da resistência kosovar morto por policiais sérvios em 1998. Xhaka colocou a camisa ao contrário, para que o nome ficasse visível sobre o seu peito.
"Não foi político, era apenas a camisa do meu companheiro de equipe", disse Xhaka após receber o prêmio de melhor jogador em campo naquela partida.
A explicação foi aceita formalmente. O gesto, porém, teve o mesmo efeito de sempre: relembrou que Xhaka carrega uma história que a Fifa preferiria manter fora do gramado. Ele próprio reconheceu a carga emocional da partida sem abrir mão da versão oficial:
"Você pode ver pela minha voz que estou rouco. Este foi um jogo cheio de emoção, isso é futebol, e foi justo o bastante. Nós quisemos focar no futebol", declarou ao receber o troféu.
Quando o adversário é a Sérvia, o foco exclusivo no futebol é uma posição que Xhaka tenta sustentar publicamente mas que raramente convence quem conhece a trajetória da família. Quando o adversário é qualquer outro, ele é simplesmente o melhor jogador em campo — e o mais importante para a Suíça funcionar.
A pergunta que fica para a Copa do Mundo de 2026 não é se Xhaka vai render taticamente — a resposta para isso já está nos números e nos padrões de jogo da seleção. A pergunta real é se a Suíça consegue, pela primeira vez em três edições seguidas, superar as oitavas de final. Em 2014, caiu para a Argentina. Em 2018, para a Suécia. Em 2022, para Portugal. Yakin tem o mesmo coletivo que fez grandes sofrerem — a Argentina em 2014, a França na Eurocopa de 2021 —, mas ainda não encontrou a fórmula para passar da segunda fase.

A estreia, neste sábado, dia 13 de junho, contra o Catar em Santa Clara, é o primeiro teste concreto. Depois virão os confrontos que definirão se este grupo, liderado por um homem que nunca foi neutro dentro ou fora do campo, finalmente transforma estabilidade em algo mais.
Na véspera da partida, Xhaka treinou com a braçadeira de capitão no braço esquerdo, a mesma que usa desde que assumiu o posto. Ao lado, Ardon Jashari — o meia de 22 anos do Milan que chegou à Copa como uma das apostas de Yakin para o futuro da seleção. Os dois dividiram um exercício de tabela no centro do campo. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Só futebol — ou pelo menos a versão que o mundo consegue ver.








