Todo mundo sabe que a Copa do Mundo começa com surpresas. O que poucos anteciparam é que uma das mais promissoras viria de uma seleção que não pisava num Mundial desde o Maracanã de 2014 — e que, nos meses anteriores a este domingo, 14 de junho, derrubou a França por 2 a 1 num amistoso que deixou a imprensa europeia desconfortável. A Costa do Marfim voltou. E voltou com outra cara.

Doze anos de silêncio que a nova geração marfinense não aceita repetir

A última vez que os Elefantes disputaram uma Copa do Mundo, Didier Drogba tinha 36 anos e carregava nos ombros o peso de uma geração inteira. Era o Brasil de 2014, Grupo C, três derrotas em três jogos, e o fim de um ciclo que havia encantado o futebol africano por quase uma década. O que veio depois foi um longo silêncio nas Eliminatórias Africanas — quatro anos em 2018, outros quatro em 2022, ausências que machucaram uma federação acostumada ao protagonismo continental.

O retorno em 2026 não é obra do acaso. O técnico Emerse Faé, que assumiu a seleção em circunstâncias dramáticas durante a Copa Africana de Nações de 2024 — quando substituiu Jean-Louis Gasset no meio do torneio e levou a Costa do Marfim ao título em casa —, construiu uma equipe que mescla experiência europeia e juventude de alto nível. Franck Kessié, agora com passagem por Barcelona e Al-Qadsiah, comanda o meio-campo ao lado de Seko Fofana. Na frente, Amad Diallo, de 22 anos, e Simon Adingra carregam a criatividade que os velhos Elefantes nunca tiveram nas pontas.

A preparação para este Mundial foi cirúrgica. Três amistosos, três vitórias: 1 a 0 sobre a Escócia, 4 a 0 sobre a Coreia do Sul e, o resultado que mais repercutiu, 2 a 1 sobre a França, com gols de Guéla Doué e do próprio Amad Diallo. Vencer os franceses em amistoso não garante nada — mas muda a temperatura de um vestiário… e aí vem o problema de subestimar quem passou por isso.

O Equador de Caicedo chega invicto há 19 jogos e com plano definido

Do outro lado do Lincoln Financial Field, em Filadélfia, o Equador de Sebastián Beccacece apresenta um dos números mais impressionantes desta Copa: 19 jogos sem perder, a maior sequência de invencibilidade da história recente da seleção equatoriana. Na reta final de preparação, os resultados foram equilibrados — empate por 1 a 1 com Marrocos, empate por 1 a 1 com a Holanda —, mas o conjunto transmite solidez defensiva e transições rápidas que Beccacece aperfeiçoou durante anos no futebol sul-americano.

Moisés Caicedo, volante do Chelsea avaliado em mais de 100 milhões de euros, é o eixo organizador do time. Ao redor dele, Piero Hincapié e Willian Pacho formam uma dupla de zagueiros que já se destacou na Europa — Hincapié pelo Bayer Leverkusen, Pacho pelo Paris Saint-Germain. Enner Valencia, capitão histórico com 40 anos, ainda aparece como referência ofensiva, embora o protagonismo jovem venha de Kendry Páez, de apenas 18 anos, e de Gonzalo Plata pelas beiradas.

Beccacece construiu uma equipe que sabe o que quer quando não tem a bola. O bloco médio compacto e a saída rápida em transição são as marcas táticas que o treinador argentino exportou para Quito. Contra uma Costa do Marfim que prefere ter a posse e criar pela velocidade dos pontas, o confronto de estilos promete tensão real nos primeiros 30 minutos.

O Grupo E e o que está em jogo além dos três pontos desta noite

O Grupo E reúne Alemanha, Costa do Marfim, Equador e Curaçao — e a hierarquia aparente coloca os alemães como favoritos ao primeiro lugar. Isso significa que a disputa pela segunda vaga é, provavelmente, o que define a campanha de marfinenses e equatorianos. Vencer neste domingo, 14 de junho, às 20h (horário de Brasília), no Lincoln Financial Field, é quase obrigatório para quem não quer depender de resultados alheios nas rodadas seguintes.

A Costa do Marfim tem pela frente, na segunda rodada, um confronto com a Alemanha em Toronto, no dia 20 de junho. O Equador joga contra Curaçao em Kansas City na mesma data. Uma derrota nesta estreia não elimina nenhum dos dois, mas comprime as margens de manobra de maneira brutal num grupo que não perdoa tropeços acumulados.

Emerse Faé, segundo relatos da comissão técnica, tem repetido nos treinos que esta geração marfinense não carrega o peso de Drogba — carrega a liberdade de quem não tem nada a provar para o passado, só para o presente. A escalação provável confirma essa filosofia: Yahia Fofana no gol, Singo e Konan nas laterais, Diomandé e Agbadou na zaga, com Kessié e Seko Fofana controlando o meio e Amad Diallo solto pela direita para criar o caos que a defesa equatoriana terá de resolver.

Será o primeiro encontro entre as duas seleções na história. Árbitro: François Letexier, da França. Transmissão na Globo, SporTV, Globoplay e CazéTV. Quem quiser entender o que a Costa do Marfim virou nesses 12 anos de ausência vai encontrar a resposta mais honesta nos 90 minutos desta noite — vale ligar o televisor às 19h45 para pegar a entrada em campo.