4 situações — e apenas 4 — autorizam a intervenção do VAR em uma partida de futebol segundo o protocolo vigente da FIFA: gol, pênalti, cartão vermelho e erro de identidade. O que aconteceu no primeiro tempo de Copa do Mundo 2026 entre Estados Unidos e Paraguai não se encaixa em nenhuma delas, e é exatamente por isso que o episódio pode custar o restante do torneio ao árbitro holandês Danny Makkelie e ao videoárbitro espanhol Carlos del Cerro Grande.
O lance que virou caso disciplinar na Copa do Mundo
A sequência de fatos é reconstituível com precisão. No primeiro tempo, Makkelie já havia aplicado um cartão amarelo ao paraguaio Cáceres. No início do segundo tempo, o árbitro holandês marcou uma falta e puniu o jogador de camisa 13 dos Estados Unidos com outro amarelo. Até aí, nenhuma irregularidade formal. O problema começa no instante seguinte: o jogo foi reiniciado, a bola voltou a rolar — e só então o VAR acionou Makkelie para revisão. O árbitro foi à tela, retirou o cartão do americano, aplicou amarelo ao paraguaio Miguel Almirón por simulação e reiniciou a partida com tiro livre indireto. Uma cadeia inteira de decisões tomadas fora do janelo permitido pelo regulamento… e aí vem o problema.
A comentarista Ana Paula Oliveira, referência brasileira em arbitragem e instrutora ligada à FIFA, foi categórica ao analisar o episódio no UOL News Esporte:
"O que me chamou a atenção ali é que ele vai na área de revisão, não há erro de identidade e ele troca a tomada de decisão do jogo que já tinha reiniciado. Ele tira o cartão amarelo do jogador americano e aplica o cartão amarelo pro jogador paraguaio, o Almirón, e reinicia o jogo. Tudo isso que foi feito está errado. A regra não prevê isso."
O jornalista Julio Gomes, no mesmo programa, foi ainda mais direto ao apontar a manipulação interpretativa da regra:
"Me parece que o VAR espanhol e o árbitro holandês usam uma regra para corrigir uma outra coisa. Então assim, ah, foi um erro de identidade. Olha, quem merecia o amarelo era o outro, não esse. É um absurdo."
Por que o protocolo do VAR não permite o que Makkelie fez
Para entender a gravidade da infração procedimental, é preciso conhecer a arquitetura do sistema. Desde a implantação oficial do VAR pela IFAB na temporada 2018/2019 — ratificada após o projeto-piloto da Copa do Mundo de 2018 na Rússia —, o protocolo estabelece que a revisão de cartões amarelos por conduta violenta ou simulação só pode ocorrer antes do reinício do jogo. A única exceção reconhecida é o chamado "erro de identidade", situação em que o árbitro puniu o jogador errado por confusão física no momento do lance — algo que, segundo Oliveira, simplesmente não ocorreu aqui.
O comentarista Paulo Massini reforçou o ponto central do debate: a questão não era se Almirón simulou ou não, mas em que momento a correção poderia ser feita. "Mas não depois de ter atualizado a bola, a falta cobrada, né? Não depois de ter atualizado o jogo seguir", afirmou. A distinção é técnica e determinante: ao reiniciar a partida, Makkelie encerrou juridicamente a possibilidade de revisão daquele lance. O que veio depois foi, nos termos do regulamento, inválido como procedimento — independentemente de quem merecia o cartão no mérito.
Historicamente, a FIFA tem sido rígida com desvios de protocolo em Copas do Mundo. Em 2018, na Rússia, o árbitro Milorad Mažić foi afastado após polêmica na semifinal entre França e Bélgica. Em 2022, no Qatar, a entidade removeu árbitros entre fases por desempenho insatisfatório. O precedente existe e é documentado.
O risco concreto de afastamento e o que muda para a arbitragem
Ana Paula Oliveira afirmou ter entrado em contato direto com um instrutor da FIFA para obter esclarecimentos sobre o caso. Suas palavras foram precisas quanto às consequências potenciais:
"No meu entendimento, conhecendo a instrução da FIFA, isso que aconteceu hoje é inadmissível e provavelmente esses árbitros receberão a correção e poderão até ficar fora da competição, mas vamos aguardar o que virá depois."
Makkelie, 42 anos, é um dos árbitros mais experientes do circuito europeu — apitou a final da Liga Europa de 2021 entre Villarreal e Manchester United e foi escalado para jogos decisivos na UEFA Champions League. Del Cerro Grande, o VAR espanhol, também tem currículo extenso em competições da FIFA. O peso dos currículos, contudo, não protege nenhum dos dois de uma eventual sanção administrativa, que no contexto de uma Copa do Mundo equivale a exclusão da lista de árbitros ativos no torneio.
O episódio expõe uma tensão estrutural que persiste desde a adoção do VAR: a tentação de "fazer justiça" no mérito mesmo quando o protocolo já fechou a janela procedimental. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já se documentava como as novas regras da Copa 2026 ampliaram o escopo do sistema de vídeo — mas nenhuma dessas novidades alterou o critério fundamental do reinício como marco de encerramento da revisão. Usar o "erro de identidade" como atalho para corrigir um erro interpretativo é, nas palavras técnicas de Oliveira, "inadmissível" — e a FIFA terá de se pronunciar oficialmente nas próximas 48 horas, período em que a comissão de arbitragem da entidade normalmente avalia incidentes de alta repercussão durante a fase de grupos.
Uma partitura bem composta pode ter uma nota errada no segundo movimento — o problema é quando o regente decide corrigir a nota depois que o concerto já avançou para o terceiro, apagando o que o público ouviu e reescrevendo a peça ao vivo. O VAR de EUA x Paraguai fez exatamente isso, e agora a FIFA precisa decidir se aceita a versão revisada ou devolve a batuta para quem respeita o compasso.








